"A identidade alicerça-se em capacidades e em valores, no que somos capazes de compreender do mundo e no significado que damos às nossas vidas". (Sônia R.R.Rodrigues)

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Jozailto Lima entrevista Thiago Paulino



Publicado originalmente no site JL Política, em 30 de Junho de 2018

Thiago Paulino: “O clichê do pão e circo devora o cultural que vem de junho”

“Precisamos repensar o que há de tradição e cultura nas festas juninas”

Dele, nenhum nordestino escapa. Deu maio, e as brisas dos festejos do mês de junho bafejam de um por um os quase 60 milhões de brasileiros que habitam a região Nordeste, da Bahia ao Maranhão. Pouco importa a sua crença ou credo.

Junho é junho, e se afigura forte e bem personalizado em comidas, roupas, músicas típicas, fé e fogos. Neste sábado, 30, a fumaça quase sacra do último junho deu seu adeus. Mas daqui a 11 meses tudo se repetirá - com as chuvas de inverno, a colheita do milho, os fogos e as louvações aos três santos da hora - Antonio, 13, João, 24, e Pedro, 29.

No centro de todo essa importância, impactando ou impactadas fortemente, estão as tradições e a cultura da região, que junho tão bem sacramenta e sacraliza numa série de atitudes que que tem na música algo meio que de síntese.

E nasce daí o maior debate sobre junho: o poeirão que o poder público faz estrondosamente levantar em eventos como os de Campina Grande, na Paraíba, em Caruaru, Pernambuco, em Aracaju, Sergipe exalta e respeita as tradições e a cultura junina, ou é apenas pirotecnia de mercado e de consumo? Uma mercantilização?

O jornalista sergipano Thiago Paulino da Silva, 38 anos, bacharel em Comunicação Social pela Universidade Católica de Pernambuco, mestre em Mídia e Cultura pela UFPE e recém-doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de Sergipe, debruçou-se por quatro anos sobre uma pesquisa nesta esfera, sai de lá com um livro chamado “Palco de disputas e disputas pelo palco no país do forró” e tem visões pouco positivas sobre tudo isso, apesar de louvar o histórico da festa.

Para Thiago Paulino da Silva, há tempos a lógica do mercado, da mercantilização, assaltou a da cultura e a da tradição e impôs palcos diferenciados e divergentes ao ciclo junino. Seu livro “Palco de disputas e disputas pelo palco no país do forró”, que é síntese da sua tese, vai (de)anunciar isso.

Na sua visão, a pauta das grandes festas públicas segue mais a linha do consumo da indústria cultural e bem menos a da tradição?, questiona-lhe uma das perguntas desta entrevista do JLPolítica. “Isso é notório e gritante”, responde Thiago Paulino, sem radicalismos.

“Essa tendência de deixar a lógica de mercado dominar os espaços de circulação da música é perigoso e, para a prática da boa cidadania, é essencial que atuemos politicamente nisso. Porque o palco não é somente diversão. É diversão também, mas é essencialmente formação de público”, diz ele.

Esta prática, fundamenta Thiago Paulino, depõe muitíssimo contra a sobrevivência da “cultura autêntica” em face de contratos que visam contemplar o cantor ou a banda que tenha mais apelo de massas. “Com certeza ela perde espaço e isso já vem se dando há um bom tempo”, reforça.

Para Thiago, mais justo e pertinente seria que a definição do mix das grandes festas públicas, que são montadas com o dinheiro do público, se desse numa discussão mais democrática e mais inclusiva dos artistas mais autênticos e que têm dificuldades de acessar os grandes palcos e as suas benesses – que vão do peso dos cachês à imponência da tecnologia.

“Porque todo artista precisa que sua música seja executada, mas não no começo ou no final de um evento, e com um cachê bem mais baixo. Isso é uma prática extremamente desumana. E ele não pode reivindicar, porque senão é cortado da programação. Mas o que é que está por trás disso? É a concepção desse palco de que falo: se for para alavancar a popularidade do prefeito ou do governador, segue-se essa lógica”, analisa.

“Isso é um ciclo vicioso que vai dar no clichê do pão e circo. Isso não só esvazia o cultural, como aproveita das palavras tradição e cultura, mesmo que de cultura nada haja. Vem daí que em Caruaru, Campina Grande e em Aracaju usem como slogan São João de Tradição e Cultura. Mas o que é que tem de tradição e cultura nesses espaços, nessas festas? Precisamos repensar isso”, denuncia Thiago.

Mas esta Entrevista Domingueira do Portal JLPolítica com Thiago Paulino da Silva não se prende somente às questões mercantis da grande festa junina. O entrevistado é instado a abordar outras esferas dela e conceitua, por exemplo, o peso de Luiz Gonzaga no ciclo junino, na música e na importância do Nordeste.

“Em apologia a um cara que vem bem depois, o Chico Science, que fala da antena fincada na lama do mangue beat, eu diria que Luiz Gonzaga foi a grande antena que não só se articulou muito com pessoas que captavam essa alma e essa essência múltipla nordestinas, como cantou muito bem isso tudo. Porque ele mesmo era um ótimo melodista. E aí conseguiu fazer com que essa música reverberasse para o Brasil todo”, diz.

Sem preocupações populistas, Thiago Paulino da Silva faz a iconoclasta defesa de que é perigosa a análise cultural que endeuse ou sacralize demais a figura de Gonzaga. “Admito até que é muito importante reconhecer quem é Luiz Gonzaga para o ciclo junino, mas entendo que endeusá-lo ou sacralizá-lo gera prejuízos para o cenário cultural. Circular muito em torno de Luiz Gonzaga pode impedir que se enxerguem outras forças que surgem”, diz ele.

Thiago Paulino da Silva é uma voz nova no universo da Sociologia. Mas vem de uma cepa antiga, e boa: é filho do professor José Paulino da Silva, um inquestionável educador sergipano-pernambucano, um doutor que emprestou sua expertise em pesquisas populares à Universidade Federal de Sergipe, da qual chegou a ser vice-reitor. Hoje é aposentado dela.

DAS VÁRIAS CAMADAS DE PERCEPÇÃO E DE INTERAÇÃO

“Quando a gente pensa na festa junina, constata-se que nela tem várias camadas de percepção e várias de interação com ela. É difícil medir quantas pessoas sabem os reais significado e sentido do que há por trás dela. Mas há um imaginário muito forte no corpo da festa”

Recém-doutorado em Sociologia, Thiago Paulino estará pondo o pé na vida acadêmica ainda este ano.

Ele está aprovado como professor assistente da UFS. Em comunicação social, teve passagens pelo Jornal do Commércio, em Pernambuco, pelo Cinform e pela TV Aparipê, em Aracaju.

Na esfera cinematográfica, por onde transita bem, foi assistente de direção e entrevistador dos documentários “Aboio e Toada” e “Herdeiros do Forró”, ambos do belga Damien Chemin. Thiago é casado como a bacharel em Direito Lavínia de Vasconcellos Góes, uma funcionária pública, com quem tem um casal de filhos - Heitor Góes Paulino, 5, e Helena Góes Paulino, 2.

Thiago Paulino da Silva é o entrevistado de número 74 da série de entrevistas do Portal JLPolítica. Vale conferir o que ele tem a dizer sobre as questões de junho e suas complexidades. Boa leitura.

DO ASSAR DOS MILHO ÀS PROCISSÕES E NOVENAS

“Os festejos em família, os comunitários, são um bom exemplo. Aquele de se estar à beira de uma fogueira, assando um milho. Há sentido em alguns campos religiosos também, nas procissões e novenas”

JLPolítica - Thiago, junho acabou de ir embora, deixando no ar a fumaça das grandes festas que se dão em nome dos três santos e da colheita de inverno, tendo o milho por ponto de partida. O brasileiro, o nordestino e o sergipano sabem o que festejam neste ciclo, ou a festa se deslocou de seu eixo e perdeu a essência de suas raízes?
Thiago Paulo da Silva - Quando a gente para pra pensar na festa junina mesmo, constata-se que nela tem várias camadas de percepção e várias outras camadas de interação com ela. Empiricamente, então, é difícil você medir assim quantas pessoas sabem os reais significado e sentido do que há por trás dela. Mas uma coisa é certa: há um imaginário muito forte no corpo dessa festa, como se fosse um amálgama que a ajuda a sobreviver.

JLPolítica - Quais são esses amálgamas?
TPS - Os festejos em família, os comunitários, são um bom exemplo. Aquele de se estar à beira de uma fogueira, assando um milho. Há sentido em alguns campos religiosos também, nas procissões e novenas. Talvez isso não esteja tão forte como tivesse sido em outras épocas da festa. A musicalidade que ainda reverbera nos migrantes das periferias urbanas é outro aspecto. A minha convivência que remete ao universo junino, por exemplo, não é a mesma convivência que meu pai, o professor José Paulino da Silva, 73 anos, teve lá no povoado pernambucano em que ele nasceu. Eu cresci num ambiente urbano e litorâneo, que é esse aqui da 13 de Julho, em Aracaju, um bairro de pescadores. Mas, de certa forma, eu tive uma conexão com junho e suas representações pelas lendas e pelas histórias que escutava em casa. E essa conexão junina vibra de alguma forma dentro de mim.

JLPolítica – Esse seria um aspecto que faz junho continuar vivo enquanto significado festivo?
TPS - Sim, ele continua vivo. Vivíssimo. Mas há diversos outros sentidos que se empregaram para esta festa. Há o de puramente diversão e entretenimento. Até certo ponto, isso provoca essa anulação da percepção de que haja três santos sendo reverenciados por esse período. Mesmo porque hoje há uma diversidade e um campo de afirmação religiosa muito forte e o entretenimento o abraça, por um questão até comercial, de público consumidor, e quer levar isso adiante. Mas há bons sentidos por trás quando uma pessoa, na frente de um palco, recebe recados de um povo migrante de algo que lhe toca a alma. E ali ele contata com uma música que lhe faz, sim, sentido.

UMA MISTURA DE CULTURAS E REGIÕES

“Os compositores que mais contribuíram para esse universo junino juntamente com Luiz Gonzaga, como Humberto Teixeira, Zé Dantas, eram pessoas do Nordeste, mas que já estavam na vida urbana do Rio de Janeiro lá pelos anos 40 e 50”

JLPolítica - O senhor desconhece que na base musical da festa existe uma apologia muito forte ao campo, ao mato, a um ideal sertanejo, a um nordestino mais profundo, de grotões?
TPS - Não desconheço, porque com certeza isso existe. A gente poderia dizer que há uma matriz musical e cultural simbólica das suas representações, com a qual esta festa estaria extremamente conectada e sobre a qual foi construída ao longo do seu processo histórico.

JLPolítica – Essa matriz se move?
TPS - Naturalmente, essa matriz, por ser construída, não é uma coisa estática. Ela é dinâmica, e também sofre interferências políticas e de interesses os mais diversos possíveis, como os urbanos. Os compositores que mais contribuíram para esse universo junino juntamente com Luiz Gonzaga, como Humberto Teixeira, Zé Dantas, e tantos outros, eram pessoas do Nordeste, mas que já estavam na vida urbana do Rio de Janeiro lá pelos anos 40 e 50, mas que remetiam às suas memórias de infância, que se deram no sertão.

JLPolítica - É justo afirmar que cada vez que alguém confronta tradição com modernidade dos festejos juninos está sendo passadista, conservador, e condenando a evolução nos ritmos, nas quadrilhas, nas vestes e nas comidas?
TPS - Na verdade, pensar numa festa estanque é extremamente injusto e cruel. Isso é um estigma criado por certas pessoas para não se promover um debate de fato do que são as tradições. Eu diria que tradições são invenções humanas. Eric Hobsbawm foi um autor que defendeu essa ideia e com ela eu compactuo. Agora, quando se começa criticar os que percebem que há um esvaziamento de sentido na festa, quando isso entra em debate, as pessoas responsáveis são tratadas de conservadoras, radicais e outros estigmas. Mas não o são. Portanto, não é justo, porque a tradição deve ser vista, também, como algo novo. É preciso perceber que a tradição carrega memórias e afetividades, mas que ela também se reinventa. Não deixa de haver saudosistas e conservadores que querem sacralizar e engessar a tradição, e isso acaba embotando o bom debate.

EVOLUÇÃO, MAS COM RESPEITO AO AFETIVO DAS TRADIÇÕES

“Pensar numa festa estanque é extremamente injusto e cruel. Tradições são invenções humanas. É preciso perceber que a tradição carrega memórias e afetividades, mas que ela também se reinventa”

JLPolítica – Qual seria o caminho ideal? É o que respeite o passado, mas que potencialize o futuro?
TPS - Eu acho que nesse campo é muito difícil apontar um caminho ideal. É muito complicado. Mas percebe-se que é vital para a memória afetiva de um povo que suas tradições, seus costumes e modos de vivências sejam respeitados. Isso tem um poder social muito grande. Veja o peso que é para um adolescente que vai a primeira vez a uma festa de forró. O rito de passagem a que ele é submetido é fantástico. Agora, é evidente que o jovem ou adolescente que escuta e curte a música junina hoje não é o mesmo para quem Humberto Teixeira compôs e Luiz Gonzaga gravou.

JLPolítica - Mas é justo que o adolescente de hoje tenha por Wesley Safadão um endeusamento e nutra uma anulação por Luiz Gonzaga?
TPS – Não. Claro que não. Não é justo, e é amplamente prejudicial para essa geração que isso ocorra, porque em Luiz Gonzaga e os da mesma linha dele há um riquíssimo arcabouço musical que não circularia se isso de fato ocorresse. O grande calo desses grandes palcos públicos e dessas outras questões envolvendo o ciclo de junho é o da disputa nesse cenário. Veja: tivemos agora em junho mais um Fórum do Forró, que falou sobre o coco de roda. Ele é um belo ritmo do ciclo junino também, de uma imensa riqueza. Mas se as pessoas não conseguem escutar e reconhecer nem o forró tradicional, imagine o coco e outras manifestações riquíssimas que existem neste universo. Mas quero deixar patente que a culpa não é do forró e nem do coco. 

JLPolítica - No ciclo junino, quem mais sofre alteração ano a ano entre música, vestimenta e alimentação? Quem é mais passivo de mudanças?
TPS - Desses três setores, o que estudei foi o da música. E eu sei dos prejuízos que a música sofre. Para a música, é vital a experiência da circulação no ciclo junino para a sobrevivência dela. Ela e o artista responsável por sua existência precisam ser escutados e dançados. Para o artista, vem da música uma forma de renda que lhe dê segurança, e você percebe que existe até uma certa ação e tendência de artistas do ciclo de quebrar essa sazonalidade. Mas eu não sei quantificar até que ponto essa estrutura comercial prejudica a comida típica e a vestimenta. Na verdade, uma dada música desse ciclo sofre por não ter espaço para circulação.

O PESO DO SÃO JOÃO X CARNAVAL

“A mercantilização está presente tanto no Carnaval quanto no São João. Mas talvez os festejos juninos toquem mais a alma do sertanejo, do povo do interior. Vejo o carnaval mais como um peso urbano, mais do operário”

JLPolítica – É possível mesclar e preservar?
TPS – Eu diria que há saídas criativas. Eu vi agora em Aracaju, por exemplo, um show da Luci Alves, muito interessante. Porque, ao mesmo tempo que ela executou um bloco de músicas com som de violino, que parecia rabeca, cativando o público com vários cocos, vários clássicos do cancioneiro popular de época que algumas pessoas não conheciam, mas que Elomar e Xangai já cantaram, ela também trouxe um ciclo de músicas extremamente voltadas para um gosto mais contemporâneo e dançante, como o funk. Veja que em Salvador os forrozeiros se uniram e criaram a Lei da Zambumba, que reivindica uma cota para que os artistas locais pudessem tocar. O Chico César já lidou com isso, por entender que esse espaço de circulação da música é vital.

JLPolítica - Mas é democrático fechar por lei caminhos a outras experimentações musicais?
TPS – Não acho que esse seja o melhor caminho. Eu defendo que se compreenda qual tipo de proposta se pretende para um evento público da magnitude dos que se passam em junho.

JLPolítica - Dá para fazer um paralelo de importância e peso entre o São João e o Carnaval para o Nordeste mais profundo, aquele do interior, tirando Salvador e Recife?
TPS - Acho que em termos de alegrias e espontaneidades, eles têm um paralelo. Mas creio que cabe um paralelo também do São João com o Natal, porque tem em ambos um sentido religioso, e que se impregna de um renascimento. Mas o elemento mercantilização está presente tanto no Carnaval quanto no São João. Mas talvez os festejos juninos toquem mais a alma do sertanejo, do povo do interior. O carnaval eu vejo mais como um peso urbano, mais do operário. O Carnaval é uma ocorrência que se dá muito em polos que acarretam massas para dançar.

O QUE É A MÚSICA JUNINA?

“É uma música está dentro desse universo, que resgata essa matriz cultural simbólica. Que de fato vibra na alma do povo nordestino, do cara que usa música para a alegria da colheita, mas também do que está na periferia de São Paulo”

JLPolítica - Luiz Gonzaga é consequência do São João ou o São João é consequência Luiz Gonzaga?
TPS - Acho que são duas “entidades” extremamente imbricadas, embora entenda que o São João é anterior a Luiz Gonzaga. Eu diria que Luiz Gonzaga foi um grande sucesso de mercado e por ter sido ele que conseguiu ampliar as fronteiras do que é o Nordeste para o Brasil. Há o depoimento no meu livro de um pessoal do extremo Sul do Brasil revelando que numa coloniazinha alemã botava-se os LPs de Luiz Gonzaga para fazer os bailes. Essa força vem uma conjunção de fatores: da genialidade do cara, mas também de uma indústria fonográfica forte e de um projeto político e desenvolvimentista de Estado que abraçou de uma certa forma o ideal dessa música. Convém ressaltar, também, que o Nordeste nunca deixou de ter seu peso cultural. Seria mais rico e seguro dizer que nós temos identidades no Nordeste - no plural.

JLPolítica – Dá para pensar o ciclo de junho sem uma música chamada junina?
TPS – Creio que não. A música junina é a essência desse ciclo. Ela é a grande trilha sonora dessa festa e, ao mesmo tempo, é universal. De modo que não dá para pensar o São João sem essa música. Creio que a música é que constrói o sentido dessa festa.

JLPolítica - O que é especificamente uma música junina?
TPS – Acho que é uma música está dentro desse universo, que resgata essa matriz cultural simbólica. Uma música que de fato vibra na alma do povo nordestino, do cara que usa música para a alegria da colheita, mas também do camarada que está na periferia de São Paulo e do fazendeiro que a escuta n a sua lida. Acho que ela toca a alma desse universo. Veja que um dos conceitos interessantes de forró vem de Jacinto Silva: ele diz que o forró ressalta a simplicidade das coisas do chão. E a força dessa musicalidade - o xaxado, o xote, o baião -, sinaliza a diversidade do que chamamos de música junina. E é preciso destacar que cada ritmo traz em si um sentido: o xaxado está ligado ao ciclo do cangaço, ao modo apressado de xaxar a plantação. E tudo isso se conecta com o povo e faz este caldeirão ser tão rico.

LUIZ GONZAGA NO CONTEXTO DA FESTA JUNINA

“Ele estava bem situado numa época histórica e se fez a pessoa certa para isso. Não se pode tirar a autonomia e a genialidade dele. Gonzaga representa toda uma musicalidade que ele escutava na infância”

JLPolítica – Mas qual é, particularmente, a importância de Luiz Gonzaga neste contexto?
TPS - Em apologia a um cara que vem bem depois, o Chico Science, que fala da antena fincada na lama do mangue beat, eu diria que Luiz Gonzaga foi a grande antena que não só se articulou muito com pessoas que captavam essa alma e essa essência múltipla nordestinas, como cantou muito bem isso tudo. Porque ele mesmo era um ótimo melodista. E aí conseguiu fazer com que essa música reverberasse para o Brasil todo. Digamos que Luiz Gonzaga estava talvez bem situado numa época histórica e se fez a pessoa certa para isso. Não se pode tirar a autonomia e a genialidade dele. Mas Gonzaga não é Luiz Gonzaga somente, ou sozinho. Ele representa toda uma musicalidade que ele escutava na infância, daquele vendedor de cavacos, que passou tocando um triângulo e ele montou o trio pé de serra incorporando isso. Na verdade, devemos admitir que Gonzaga foi um grande inventor - e nisso se insere a invenção do trio pé de serra. A gente pensa que isso vem de uma ancestralidade secular - mas vem dele, e ao mesmo tempo não deixa de ter essa ancestralidade da música negra.

JLPolítica – O senhor acha que se ele fosse vivo e estivesse em condições de palco e de show teria que tipo de acolhida de povo e de promotores de eventos juninos?
TPS – Talvez ele caísse no mesmo jogo, infelizmente, de ícones dessa música que ainda estão na ativa, como Alcymar Monteiro, Flávio José e até o próprio Dominguinhos, falecido recentemente. Isso equivale a dizer um espaço garantido, mas talvez não um em que não tocasse tanto quanto deveria tocar. Apesar disso, eu acredito que Luiz Gonzaga permanece e que se estivesse vivo e em condições de palco e de show, como alude a pergunta, talvez permanecesse até menos. Talvez não tivéssemos essa figura de um mito. Admito até que é muito importante reconhecer quem é Luiz Gonzaga para o ciclo junino, mas entendo que endeusá-lo ou sacralizá-lo gera prejuízos para o cenário cultural. Esse tema foi inclusive levantado pelo cantor e compositor Silvério Pessoa no Fórum do Forró deste ano. Circular muito em torno de Luiz Gonzaga pode impedir que se enxerguem outras forças que surgem.

JLPolítica - O senhor debruçou-se durante quatro anos sobre uma tese de doutorado nesta esfera de junho e vem com um livro chamado “Palco de disputas e disputas pelo palco no país do forró”. Qual é a síntese da sua pesquisa?
TPS - É a de que existem dois tipos de palcos. Um, que é a própria programação dos festejos juninos – espaço físico, horário, tempo -, no qual se precisa subir para que a música circule. E o forrozeiro tradicional sofre para acessar este tipo de palco. Ele tem de atravessar uma série de disputas, inclusive políticas e econômicas, para fazer com que a sua música circule. E existe um outro palco e um cenário de disputa mais amplo, que seria o histórico e social, no qual você tem de enfrentar forças macroeconômicas que regem e empurram as coisas para privilegiar certos gêneros em detrimentos de outros. Um Forrócaju está dentro de um sistema de espetáculos e megashows que surge lá pelos anos 90 e que traz uma nova concepção que esvazia o protagonismo do povo na festa. Para o artista forrozeiro que está acostumado a uma outra dinâmica social, adentrar um palco desses lhe exige uma série de etapas. Existem práticas de clientelismos políticos, de privilégios, e de forças que interferem nos critérios de escolha de um artista para esse palco.

PERIGO DE ENDEUSAR OU SACRALIZAR LUIZ GONZAGA

“Admito que é muito importante reconhecer quem é Luiz Gonzaga para o ciclo junino, mas endeusá-lo ou sacralizá-lo gera prejuízos para o cenário cultural. Circular muito em torno de Gonzaga pode impedir que se enxerguem outras forças que surgem”

JLPolítica - Na sua visão, a pauta das grandes festas públicas segue mais a linha do consumo da indústria cultural e bem menos a da tradição?
TPS - Isso é notório e gritante. Em abril foi divulgada a programação do São João de Campina Grande, na Paraíba, e nela não constava o nome de Elba Ramalho. Por que? Porque toda a programação dali estava sendo gerenciada por uma empresa. Houve uma terceirização, algo parecido com o que se deu aqui em Aracaju na gestão de João Alves Filho, com o Teo Santana assumindo – e quando uma empresa externa assume, os critérios passam a ser dela. Elba só teria entrado por causa de uma intervenção política. Essa tendência de deixar a lógica de mercado dominar os espaços de circulação da música é perigoso e, para a prática da boa cidadania, é essencial que atuemos politicamente nisso. Porque o palco não é somente diversão. É diversão também, mas é essencialmente formação de público.

JLPolítica - O senhor acha que a “cultura autêntica” - se é que não há risco nesta afirmação - perde quando o contrato destes artistas de junho pelo agente público é feito visando o cantor ou banda que tem mais apelo de massas?
TPS – Com certeza ela perde espaço e isso já vem se dando há um bom tempo. Porque todo artista precisa que sua música seja executada, mas não no começo ou no final de um evento e com um cachê bem mais baixo. Isso é uma prática extremamente desumana. E ele não pode reivindicar, porque senão é cortado da programação. Mas o que é que está por trás disso? É a concepção desse palco de que falo. Se for para alavancar a popularidade do prefeito ou do governador, segue-se essa lógica. Claro que existe uma pressão também sobre o gestor, e ela vem de por onde a música circula nas rádios, e esse gestor cede naturalmente, porque ele quer que esse palco gere a promoção da sua gestão e da sua popularidade. Isso é um ciclo vicioso que vai dar no clichê do pão e circo. Isso não só esvazia o cultural, como aproveita das palavras tradição e cultura, mesmo que de cultura nada haja. Vem daí que em Caruaru, Campina Grande e em Aracaju usem como slogan São João de Tradição e Cultura. Mas o que é que tem de tradição e cultura nesses espaços, nessas festas? Precisamos repensar isso.

JLPolítica - O senhor considera normal e comum que Governos de Estados e grandes Prefeituras contratem duplas sertanejas do Centro-Oeste para animar o ciclo de junho no Nordeste?
TPS - Isso na verdade foi o centro da polêmica “Devolva o meu São João”. Eu não acho que se deva completamente excluir essa tendência, mas entendo que se deva estabelecer um parâmetro mínimo de espaço para que o grosso do financiamento público e dos cachês esteja de fato ao lado da economia e da criatividade local. Dos talentos conectados ao sentido do São João. Entendo que se desvirtua completamente a festa se se botar somente sertanejos e DJs.

RISCO DA LÓGICA DE MERCADO DOMINAR JUNHO

“Deixar a lógica de mercado dominar os espaços de circulação da música é perigoso e é essencial que atuemos politicamente nisso. O palco não é somente diversão. É diversão também, mas é essencialmente formação de público

JLPolítica - O senhor acha que o Fórum do Forró, realizado há tantos anos em Aracaju, produz alguma reflexão prática ou se perdeu em intrincadas questões acadêmicas?  
TPS – O Fórum, que foi fundado por Paulo Corrêa, cumpre uma função muito importante no aspecto cultural. Mas quando ele fez 10 anos, eu resgatei num texto uma promessa que o prefeito Edvaldo Nogueira tinha feito, de criar uma Comissão pelo Fórum e que não foi cumprida. Mas esse Fórum tem a importância de nos fazer conhecer autores e histórias de forró. Eu diria que cabe ao Fórum esse papel de formação de público. Creio que o legado dele fica. Agora, ele deveria atentar para questões deliberativas práticas, como a de aliar as questões de cultura com a prática das es colas, que foi uma sugestão trazida por Silvério Pessoa. Porque isso infere na formação dos palcos que debatemos aqui. E os professores presentes saíram com a cabeça mexida por essa possibilidade. O Fórum poderia pensar, por exemplo, na capacitação dos forrozeiros para fazer com sua música ganhe a internet e circule bem mais.

Texto e imagens reproduzidos do site: jlpolitica.com.br/entrevista

quarta-feira, 21 de março de 2018

Livro traz em cordel biografias de 15 mulheres negras...

Jarid Arraes, de 26 anos, rompe com o estereótipo
 do produtor de cordéis do Nordeste

Publicado originalmente no site Rede Brasil Atual, em 02/09/2017 

Livro traz em cordel biografias de 15 mulheres negras que fizeram história

Histórias de Antonieta de Barros, Carolina Maria de Jesus, Dandara dos Palmares, Laudelina de Campos, Luísa Mahin e outras heroínas negras brasileiras estão em novo livro da cordelista Jarid Arraes

Por Nina Fideles, para Revista do Brasil 

Com a intenção de misturar a tradição do cordel com novos elementos, a escritora e cordelista Jarid Arraes, 26 anos, rompe com o estereótipo do produtor de cordéis do Nordeste. Tanto na aparência quanto nos temas que são tratados pelos folhetos publicados por ela, que já são mais de 60 títulos. Nada de chapéus de couro ou vestidos de chita, como ela mesma diz, nem de personagens caricatos ou cômicos para contar histórias. Seus folhetos tratam questões raciais, de gênero, LGBT, lendas da África e temas para o público infantil.

Jarid lançou recentemente o livro Heróinas Negras Brasileiras em 15 cordéis, que reúne 15 biografias, já publicadas em folhetos, de mulheres como Antonieta de Barros, Carolina Maria de Jesus, Dandara dos Palmares, Laudelina de Campos, Luísa Mahin e outras que fizeram história no país. Ainda no formato de folhetos, com encomendas apenas por email, Jarid vendeu mais de 20 mil cordéis. Nas livrarias, Heroínas já vendeu cerca de 7 mil exemplares e está na terceira tiragem.

Nascida na cidade de Juazeiro do Norte, na Região Metropolitana da Cariri, no Ceará, Jarid tem a literatura de cordel no sangue. O avô, de 81 anos, Abraão Batista, e o pai, com 47, Hamurabi Batista, são cordelistas e xilogravuristas. Viajam juntos e continuam escrevendo. “Eu cresci lendo os cordéis deles, especialmente. Sempre que eles publicavam algo novo eu era a primeira a ler”, conta.

Em 2014, mudou-se pra São Paulo. E passou a tratar temas como o feminismo nas redes, ganhou a internet e, dois anos depois, se desafiou a escrever cordel. Protelou este momento por considerar difícil a arte de escrever daquela forma. Segundo ela, mesmo sendo tratado como uma literatura inferior, o cordel exige uma técnica que incorpora a métrica, rimas e oração.

Para o futuro pretende lançar mais folhetos de heroínas negras, algumas delas mais recentes, “pois elas precisam ser reconhecidas enquanto estão vivas”, acredita. E também uma coleção de cordéis eróticos, assim como o pai que fez uma série de xilogravuras do Kama Sutra para casais heterossexuais e gays.

Para Jarid, escrever cordel é uma forma de se conectar com suas origens, de valorizar uma arte não reconhecida, e de contar histórias que não puderam ser contadas, mas sempre muito mais que isso. “É uma forma de me relacionar com a minha cultura sem ser reduzida a ela. Eu gosto de Lady Gaga, de metal e tenho tatuagens, e gosto de cordel e xilogravura. E falo comendo plural. E aí? Dá um nó”, brinca. Saiba mais sobre Jarid Arraes nesta entrevista.

Como foi o seu encontro com o cordel?

Meu avo e meu pai são cordelistas e xilogravadores. Eu cresci lendo os cordéis deles, especialmente. Sempre que publicavam eu era a primeira a ler. E cresci entre cordel também, porque meu avô fundou um centro de cultura popular lá em Juazeiro do Norte que existe até hoje, que é o Mestre Noza (Inocêncio Medeiros da Costa, considerado o primeiro artesão da região), que é uma associação onde se vendem as peças dos artesões e lá também tinha muito cordel. Eu sempre li muito cordel, mas em sua maioria escrito por homens.

Sempre amei, mas achava que não tinha nenhum talento para escrever, e vendo o quanto meu pai e avô são bons, nem considerava. Quando comecei a escrever sobre feminismo e fui colunista da Revista Fórum, comecei a considerar a escrever para o mundo e pensei no cordel mais como uma forma também de manter viva a tradição. Se novas gerações não tomarem o cordel ele vai acabar morrendo. Mas eu não queria fazer o mais do mesmo. Que é um problema do cordel e também da literatura em geral.

Os mesmos temas, os mesmos personagens, as mesmas histórias, escritos pelas mesmas pessoas. Me incomodava muito também que fosse tão cheio de machismo, que personagens gays, travestis, negros, mulheres, tivessem sempre um papel secundário, ou debochado. Ainda mais meu avô que é superconservador, meu pai um meio termo e eu fui uma revolução total.

Aí foi bom que meu pai deixou de ser um meio termo e meu avô surpreendentemente recebe muito bem os meus cordéis. Ele sair de uma pessoa que dizia que feminista e sapatão é a mesma coisa, de uma forma muito pejorativa, pra ler os meus cordéis e ter orgulho deles é um passo muito grande. Então minha ideia era essa, de juntar a tradição com o novo. E eu não seria capaz de escrever alguma coisa que não trouxesse estas questões de alguma forma. Com protagonistas mulheres no mínimo, mas que se eu fosse escrever algo sobre os travestis e os gays, que fosse como personagens complexos como qualquer outro e não com estereótipo e deboche. E todas as outras coisas que escrevo também são super influenciadas pelo cordel.

  
Escrevo em busca disso de me conectar com essa origem que não conheço, e que a maioria das pessoas negras brasileiras não conhece, porque uma das primeiras coisa roubada das pessoas negras que foram sequestradas e traficadas para o Brasil foi a identidade

Os cordéis em sua maioria são machistas e misóginos?

Predominante sim. Infelizmente. Porque são histórias de um cangaceiro, ou de um sertanejo, de um guerreiro... O homem sempre é uma figura heroica, e a mulher sempre na posição de coadjuvante, isso quando ela não está sendo ofendida. Mas lógico que seria sim, porque a maioria das pessoas que escrevem cordel tem mais de 40 anos, outra geração, outro mundo. Não que isso justifique, mas ainda mais no contexto do Nordeste que tem o machismo como uma característica muito forte da cultura.

Os homens são mais reconhecidos, mais convidados, mais lidos. Tem uma antologia do cordel brasileiro que é um livro que só tem homens, não tem nenhuma cordelista mulher. Nenhuma! Recentemente saiu uma matéria do Nexo sobre cordel, muito grande, trazia dados antigos, mas só homens. Até mesmo a mulher que foi entrevistada, uma pesquisadora, só citou homens. Ao final a matéria ainda faz uma mea culpa dizendo que só tem homens, mas é porque é assim mesmo. Mas não é bem assim.

Existem mulheres cordelistas, mas tem que romper um pouquinho a preguiça para pesquisar e encontrar esses nomes. Até mesmo porque são nomes menos acessíveis, porque se você convida sempre as mesmas pessoas para falar sobre cordel, elas darão sempre as mesmas referências. Eu tenho referências diferentes das do Marco Aurélio, que foi quem escreveu a antologia do cordel brasileiro, por exemplo.

Qual seu principal objetivo ao escrever cordéis?

Quando eu faço cordel, na verdade qualquer coisa que eu escrevo, eu escrevo porque quero contar histórias que não foram contadas, principalmente porque as pessoas que protagonizam essas histórias não puderam contar. E eu escrevo muito para me ligar às minhas origens. Porque sou da classificação geral como dizem ‘parda’, e sou negra como identificação política, embora minha pele seja clara, meu pai é negro, também de pele clara, e ele é o único negro da família dele. E eu não sei de onde veio a negritude da família.

Então eu escrevo muito em busca disso, de me conectar com essa origem que eu não conheço, e que infelizmente a maioria das pessoas negras brasileiras não conhece porque uma das primeiras coisas que foi roubada das pessoas negras que foram sequestradas e traficadas para o Brasil foi a identidade. O nome foi mudado, o sobrenome, e com isso se perde a origem.

Hoje estou aqui por que antes tiveram pessoas que lutaram tanto, para que eu tivesse direitos que eu considero tão garantidos e não são. Antes de eu escrever, Carolina de Jesus escreveu e sofreu muito para conseguir publicar. No momento em que ela fugiu do estereótipo do fetiche que tinham sobre ela da favelada que escreve sobre a favela, ninguém quis mais ler, e ela não deixou de ser escritora, ela insistiu muito. E eu me identifico muito com isso. Porque se eu não me encaixar neste estereótipo, se não fizer um personagem cômico para escrever cordel, é menos cordel?

É uma forma de me relacionar com a minha cultura sem ser reduzida a ela. Eu gosto de Lady Gaga, de Metal e tenho tatuagens, e gosto de cordel e xilogravura. E falo comendo plural. E aí? Dá um nó. O cordel é uma literatura que não tem voz no Brasil hoje no mercado editorial.

E você tem sido bem recebida no cenário dos cordéis, mesmo abordando temas pouco tratados no cenário?

Eu sou muito na minha e por saber que eu sou muito aberta em criticar o que acho que precisa ser discutido, eu não me aproximo muito porque não queria impor nada. Se rolasse interesse em dialogar estaria sempre aberta, mas nunca procurei. Meus contatos são meu pai e meu avô. Nunca tive nenhum problema, mas ao mesmo tempo eu percebo que não sou a pessoa convidada por quem faz curadoria de alguns eventos. Não sei se porque sou muito nova ou se porque o que eu faço é muito carregado de política. Isso fecha algumas portas e pode abrir outras.

Você sente que os novos cordéis já abordam temas mais políticos e temas novos?

As pessoas que tenho acompanhado no Facebook estão sim fazendo temas novos. Discutindo gênero por exemplo. Tem um cordelista homem bem tradicional que recentemente publicou uma biografia de uma heroína negra, que inclusive é uma das que está no meu livro, que eu já tinha escrito sobre ela antes. Só não sei se é um interesse genuíno, uma vontade de mudar, ou se é aproveitando a onda do momento. Ao mesmo tempo percebo coisas que você não acredita que exista ainda em 2017.

E sobre este título de mais nova cordelista...

Disseram isso, mas acho que não é bem assim. Conheci recentemente um menino de 18 anos que publica cordéis no Instagram. Talvez as pessoas achem que eu sou a mais jovem que leva isso profissionalmente. Primeiro porque as pessoas não conhecem muitos cordelistas, e eu acabo aparecendo mais, pois já vinha aparecendo antes falando sobre feminismo, estava na internet, e também porque eu acho que eu consigo fazer um diálogo com gerações mais novas, e com temas novos, e eu não sou a figura estereotipada que as pessoas esperam quando se fala em cordelista. Já vi mulheres em evento com chapéu de couro, roupa de chita... é um personagem, e eu não tenho nada a ver com isso. Quando eu chego numa escola para falar de cordel as pessoas esperam outra coisa, sei lá, o Chicó do Auto da Compadecida (risos). Nada contra, mas não sou eu. Mas enfim, não dá pra saber quem é o mais jovem cordelista. Tomara que não seja eu.

Numa era extremamente digital, com questões sobre o fim do livro, fim do impresso, como o cordel tem se reinventado neste sentido?

Eu acompanho dois autores que tem belas iniciativas que são Um repente por dia e a outra o Estilo Xilo. Ambas são 100% digitais. Tanto no cordel, na literatura, quanto nas xilogravuras. São dois rapazes jovens. Acho isso muito incrível porque torna acessível uma literatura que é tão desvalorizada e que as pessoas acham que é reduzida a certos espaços. Por exemplo, pensam em cordel e acham que vão encontrar na feira nordestina de algum lugar, ou em um livro da escola e nunca mais. E colocar essas artes no Facebook  ou no Instagram e dialogar com novas gerações faz com que as pessoas se aproximem do cordel e tenham menos preconceito, e vejam que cordel não é só Lampião. Se uma tradição está morrendo é porque ela falhou em dialogar, em se reinventar e trazer novas coisas. Eu não acredito em tradição por tradição. Tradição para mim tem que ser preservada se trouxer coisas boas para o presente e para o futuro. Então o cordel tem que se reinventar, tentar chegar de outras formas...

E tem conseguido?

Eu tenho dificuldade de ver como estão os outros além do meu trabalho. No meu caso tem dado muito certo. Eu tenho chegado em muitas pessoas que não conheciam, dando oficinas de cordel... O que eu vejo muito é cordel em livro. Igual eu fiz agora, peguei meus 15 folhetos e publiquei em livro. E eu vejo muitos cordelistas que não publicam mais folhetos, só fazem livros, porque a editora quer o livro. Eu tenho a impressão que o cordel está fadado a virar só livro. Mas para afirmar isso precisa de alguma pessoa que pesquise, que vá atrás de mais informações. Mas eu sinto isso. E as pessoas ainda enxergam o cordel como algo bem folclórico, não é literatura, não está em pé de igualdade com outras literaturas, é considerado inferior, não é visto como poesia... Nenhum concurso literário premia poesia em forma de cordel, não tem seção na livraria, não tem folhetos na livraria...

Um dos sensos comuns que podem interferir nesta questão de inferiorizar o cordel pode ter a ver com a questão de escrever “errado”, entre muitas aspas...

Tem cordéis e cordéis. Meu avô, por exemplo, escrevia sempre tudo muito certinho. Meu pai também, dentro das normas gramaticais e ortográficas. Para caber na métrica a gente muda ou encurta as palavras. O ‘até’ vira ‘té’. Acho ridículo exigir gramática e ortografia perfeita para considerar algo bom e bem escrito. O bem escrito não tem nada a ver com a revisão, mas é como se comunica, a poesia daquilo, o que causa na pessoa... Eu tenho pena das pessoas que pensam assim. É ser muito pequeno. A língua portuguesa, a brasileira então, é muito rica na sua regionalidade. A beleza do cordel é isso também de traduzir tão bem uma identidade. E ninguém fala tão corretamente. Quem que fala ‘deu de ombros’? E ta lá no livro. Mas ninguém usa. Por outro lado comemos o plural o tempo inteiro. Não é forçar a fala errada ou ficar engraçado, ou querer mostrar como uma pessoa é burra, mas as pessoas falam desse jeito. E pra mim isso torna a literatura ainda mais rica. Tanto de sentimento, de você se identificar com aquilo, de se imergir com aquilo, mas pela estética também. Quando o cordel está cheio de referências regionais.

Quais as suas maiores influências no cordel?

Meu pai. A forma que a gente escreve se parece muito. Eu aprendi com ele né? Mas principalmente porque meu pai já escrevia cordéis discutindo temáticas importantes. O primeiro cordel que li dele foi Os quinhentos anos que invadiram o Brasil, na época dos 500 anos e Globo passava umas vinhetas à época e ele tava putíssimo. Meu pai era punk quando mais novo, gosta de reaggae, tem tatuagens, maconheiro assumido, de defender a causa, então é grande influência para mim. E outra pessoa é a Salete Maria, professora de Direito da UFBA (Universidade Federal da Bahia), e uma vez ela escreveu um documento apresentada ao juiz todo em forma de cordel.

E fora do cordel?

Na minha adolescência li muita poesia, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Paulo Leminski, Ferreira Goulart, Augusto dos Anjos... muitos homens. Depois fui descobrindo o feminismo e tendo acesso à internet, lá no Cariri era mais demorado, e descobri poetas, principalmente não brasileiras, como a Silva Clark e a Anne Sexton, Alice Ruiz... Depois eu comecei a me pergunta por que na minha estante só tinham homens, que não tinha livros feitos por mulheres, e depois me perguntar sobre não ter referências de escritoras negras. E tive de fazer um exercício de procurar para ler. Não que me influenciem na escrita, mas são referências para mim, e abriram caminhos para que eu pudesse escrever. Conceição Evaristo, Beatriz Nascimento, são mulheres que tenho muita gratidão por tudo o que elas fizeram até aqui.

Texto e imagens reproduzidos do site: redebrasilatual.com.br

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Livro da Biografia de Rolando Boldrin

Sucesso. Artista marcou época nas telinhas quando comandou 
o 'Som Brasil', na TV Globo. (Foto: Daniel Teixeira/Estadão).

Exército. Soldado número 967 do batalhão em Quitaúna,
 em Osasco. (Foto: Acervo pessoal).

Rádio. Boldrin declama trechos de 'Brasil Caboclo'.
(Foto: Acervo pessoal).

Publicado originalmente no site do jornal Estadão, em 05 Julho 2017.

Biografia de Rolando Boldrin relembra sua trajetória na música, TV, cinema e teatro

Livro foi escrito pelos jornalistas Willian Corrêa e Ricardo Taira, ambos da TV Cultura

Por João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo.


Quando o jovem Rolando Boldrin, então com 16 anos, resolveu vender o violão da família para conseguir dinheiro e embarcar em uma aventura desconhecida rumo a São Paulo, a tal cidade grande, o pai, seu Amadeu, não pensou duas vezes: “O que é que você fez? Pois vamos buscar de volta esse violão agora, menino”, afirmou ele sem precisar pedir que o filho o seguisse. “Devolva o violão dele. Tome aqui o seu dinheiro”, disse o alto e imponente homem grisalho ao alfaiate Chiquinho Cesário, um conhecido boêmio da pacata cidade de São Joaquim da Barra, a 396 quilômetros da capital paulista.

Na noite seguinte, já com o violão em segurança, o pai cedeu aos encantos dos pequenos e tristonhos olhos azuis do determinado Boldrin. “Tome cuidado naquela cidade, caboclinho, e tenha juízo”, recomendou. Ao pagar a passagem de trem do menino para a chamada selva de pedra, sem permitir que ele se desfizesse de seu bem mais precioso, o violão de seis cordas, seu Amadeu, inconscientemente, traçou para sempre a história de um dos personagens mais intrigantes da cultura popular brasileira. “Eu não tinha um tostão no bolso. Sobraram só alguns trocados para comprar dois pastéis. Eu e outros dois amigos chegamos a dormir na rua”, lembra Boldrin.

O ‘senhor Brasil’ foi para a metrópole atrás de seus sonhos. Queria ser ator de rádio, televisão e teatro. Músico? Quem sabe. Desinibido e com um talento nato para as artes cênicas, Boldrin almejava o estrelato. Foi justamente em São Paulo que virou gente grande. Trabalhou como sapateiro, garçom e até frentista. Aos 18, serviu o Exército. “Meu pai, o seu Amadeu, sempre me dizia que todo sujeito precisa de uma ocupação. Para ele, com 16 anos já era homem adulto”, lembra Boldrin, que recebeu a reportagem do Estado em sua casa, na região da Granja Viana, para falar sobre seu novo livro. Toda a trajetória do músico, ator e apresentador é contada em detalhes na biografia A História de Rolando Boldrin - Sr. Brasil, escrita pelos jornalistas Willian Corrêa e Ricardo Taira, ambos da TV Cultura, emissora na qual Boldrin comanda desde 2005 o programa Sr. Brasil. “Não sou apresentador. Não gosto dessa definição. Nem músico. Sou um ator que canta. Bem abaixo de um Moacir Franco, por exemplo”, pondera.

A entrada para o mundo artístico demorou para se concretizar. Ela veio apenas no fim da década de 1950, quando foi aprovado em um teste para a Tupi, extinta emissora de rádio e TV. Alugou um quartinho modesto bem perto do novo local de trabalho, no Sumaré, zona oeste de São Paulo, e dedicou-se fielmente ao ofício. Apanhou. E como apanhou. Na vida e nas telas. Passou a atuar como figurante no seriado Falcão Negro, que tinha como protagonista o ator José Parisi. Parisi, o chamado Zorro brasileiro, era forte. Ele não gostava de dublês e exigia que os sopapos e pontapés das cenas fossem reais. “Rapaz, como eu apanhava. Soco pra lá, chute pra cá. Perguntei a Deus se tinha vindo a São Paulo só para apanhar?”, conta ele.

Passado algum tempo, Rolando Boldrin começou a se firmar na Tupi e contracenou com grandes nomes. De Luiz Gustavo e Lima Duarte, passando por Laura Cardoso, e a jovem atriz estreante Susana Vieira. Boldrin chegou a participar da primeira gravação em tape da TV brasileira. Um feito histórico para um rapaz recém-saído de uma pequena e longínqua cidade do interior de São Paulo.

De tempos em tempos, ele voltava a São Joaquim da Barra para visitar os amigos e a família. Seu companheiro mais fiel era o Dito Preto, sim aquele mesmo que ilustra os inúmeros "causos" contados por Boldrin na televisão. Engraxate da barbearia da praça, Dito Preto tinha uma personalidade única. Certa vez ele se apaixonou por uma moça da cidade e queria se declarar a ela. Numa noite de bebedeira, Boldrin e o amigo foram até a paróquia da cidade para pegar a imagem de São Joaquim e cantarolar em frente à porta da pretendente, que tinha uma família muito religiosa. Os amigos ficaram tão bêbados que não conseguiram fazer a serenata. A história chegou no ouvido do delegado, que prendeu Dito Preto. Boldrin precisou voltar de São Paulo para explicar o ocorrido e devolver a imagem de São Joaquim. "Aquele seu irmão artista está na cidade?", indagou o novo padre da paróquia à Irma de Boldrin. "É bom saber, assim escondo todas as imagens daqui", complementou. "Fiquei com fama de sequestrador de santo", gargalha Boldrin.

Música. Depois de se aventurar pelo teatro e gravar a última novela, Os Imigrantes, exibida pela TV Bandeirantes, Rolando Boldrin passou a se dedicar apenas à vida musical. Voltou aos velhos tempos da dupla Boy e Formiga, que tinha com o irmão ainda na infância, e investiu nas composições. O casamento com a primeira mulher, a cantora Lurdinha Pereira, fortaleceu tal atividade.

A consagração de Boldrin, no entanto, veio com o programa Som Brasil, exibido nas manhãs da TV Globo. Recusado outrora por outras emissoras, o projeto de Boldrin acabou decolando. Foi com ele, inclusive, que a música de raiz e a diversidade cultural dos cantores brasileiros ganharam força. “Sempre bati o pé para fazer as coisas do meu jeito, lá na Globo. Eu recusei muitos artistas por achá-los ruins. Toda a produção do programa, assim como o do Sr. Brasil, na Cultura, é minha. Eu escolhia as músicas e os artistas. Eles bem que tentaram pressionar, mas eu não deixava. Foram três anos incríveis”, conta ainda Rolando Boldrin.

A HISTÓRIA DE ROLANDO BOLDRIN - SR. BRASIL
Autor: Willian Corrêa e Ricardo Taira
Editora: Contexto (224 págs.;R$ 45)

Texto e imagens reproduzidos do site: cultura.estadao.com.br

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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Biografia - Alvarenga e Ranchinho


Biografia - Alvarenga e Ranchinho

Murilo Alvarenga nasceu em Itaúna-MG no dia 22/05/1912 e faleceu em 18/01/1978. Diésis dos Anjos Gaia, o Ranchinho, nasceu em Jacareí-SP no dia 23/05/1913 e faleceu no dia 05/07/1991.

Antes de iniciar o resumo biográfico, é preciso lembrar que o Alvarenga foi apenas um e que, no entanto, por força das circunstâncias, acabou fazendo dupla com "3 Ranchinhos"!!

O "primeiro Ranchinho", portanto, foi Diésis dos Anjos Gaia, que cantou com Alvarenga de 1933 a 1938, retornando no ano seguinte e que, após outros sumiços, abandonou a dupla em 1965.

O "segundo Ranchinho" foi Delamare de Abreu (nascido em São Paulo-SP no dia 28/10/1920), irmão de Murilo Alvarenga por parte de mãe, e que fez dupla com ele por dois meses na década de 50. Delamare mais tarde deixou o palco e passou a ser Pastor Protestante.

E o "terceiro Ranchinho", que foi quem ficou mais tempo ao lado de Murilo, foi Homero de Souza Campos (1930-1997), conhecido também como "Ranchinho da Viola" e como "Ranchinho II" (apesar de ter sido o "terceiro"). Homero cantou com Murilo Alvarenga de 1965 até o seu falecimento em 1978.

O "Ranchinho da Viola" foi o mesmo Homero que também integrou o "Trio Mineiro", juntamente com Bolinha e Cosmorama e que chegou a gravar 12 discos de 78 RPM. E, com Alvarenga, Homero gravou 15 discos, entre 78 RPM e LPs.

Chegaram a gravar 30 LPs e 600 discos em 78 rotações em 50 anos de carreira. Ocuparam lugar de destaque na música sertaneja brasileira, significando grande parte do faturamento das gravadoras. Foram importantes atrações no Cassino da Urca, no Rio de Janeiro, bem como nas programações de rádio da época. Em suas paródias e músicas, criticavam o governo de Getulio Vargas e chegaram a incomodar tanto sua polícia que foram várias vezes presos.

A dupla participou do primeiro filme falado feito em São Paulo, Fazendo Fita, em 1935, levada por Ariowaldo Pires, o Capitão Furtado. Fizeram também Tererê Não Resolve, em 1938, Laranja da China e Céu Azul, em 1940. Sobrinho de Cornélio Pires, quem primeiro gravou música sertaneja, Ariowaldo uniu-se à dupla e lançou no rádio a Trinca do Bom Humor. O trio estreou no disco em 1936, com Itália e Abissínia, uma sátira sobre o conflito entre os dois países. Zombaram da instituição do divórcio em O Divórcio vem Aí e divertiram o público quando na troca da moeda em 1943 com Você Já Viu o Cruzeiro? Em cima do problema de combustível durante a guerra, fizeram Racionamento da Gasolina.

Criticaram todo mundo, Hitler, Mussolini e políticos locais de vários escalões. Por causa de Liga dos Bichos, onde em 1936 relacionaram os políticos aos animais, tiveram problemas com a censura, que viu na letra uma alusão a Osvaldo Aranha, um dos principais ministros de Getulio. Com História de um Soldado, letra da autoria de Alvarenga, foram detidos pela polícia e levados por Alzira Vargas, filha de Getulio, à presença do presidente para que apresentassem a paródia. Embaraçados, cantaram a música até o fim, cuja letra referia-se a tramitação de um documento pelo exército até chegar às mãos do Presidente da República. Getulio sorriu, afirmou não ver ofensa nos versos e liberou a dupla, desde que não ferissem a moral ou o físico das pessoas.

Entre seus trabalhos, destaca-se também a valsa humorística Drama de Angélica, da autoria de Alvarenga. Em 1956, gravaram para a Odeon os baiões Tá no Papo e Guaratinguetá, ambos de autoria da dupla. Encerraram a carreira de paródias em 1966, com uma gozação com a música de Geraldo Vandré, Disparada.

Texto reproduzido do site: letradamusica.net/alvarenga-ranchinho

domingo, 23 de julho de 2017

Jararaca e Ratinho - Dupla Sertaneja


Jararaca e Ratinho - Dupla Sertaneja

Jararaca e Ratinho foi uma dupla sertaneja, compositores e humoristas formada pelos músicos José Luiz Rodrigues Calazans (Jararaca) que nasceu em Maceió, no dia 29 de setembro de 1896 e faleceu no Rio de Janeiro no dia 11 de outubro de 1977, e por Severino Rangel de Carvalho (Ratinho), nascido em Itabaiana no dia 13 de abril de 1896 e falecido em Duque de Caxias, no dia 8 de setembro de 1972.

José Luiz Rodrigues Calazans, o Jararaca, era filho do poeta e professor muito conhecido Ernesto Alves Rodrigues e começou a tocar sua viola aos 8 anos de idade, inspirado em seus irmãos que também eram violeiros e seresteiros.

Ainda criança conviveu muito com os boiadeiros que vinham das Minas Gerais, onde ouvia diversas estórias, que mais tarde iriam influenciar bastante a sua música. Em 1915 aproximadamente começou atuar juntamente com um grupo teatral na cidade Piranhas, em Alagoas. Dizem também que integrou o bando de Lampião por quase dois anos, e no início da década de 20 resolveu tentar a carreira artística.

Severino Rangel, o Ratinho, ficou órfão ainda bebê e acabou sendo criado por seu tios e padrinhos e foi sua tia a incentivar o sobrinho na música. Começou a tocar ainda criança na Banda Musical de Itabaiana, no Estado da Bahia, e em 1914 mudou-se para Recife onde integrou a orquestra sinfônica local tocando trompete, saxofone e ainda dava aulas numa escola de aprendizes.

Por volta de 1919 Severino Rangel (Ratinho) e José Calazans (Jararaca) se conheceram quando passaram a integrar o Bloco dos Boêmios. Pouco tempo depois em 1921, formaram o grupo “Os Boêmios”  e tempos depois o grupo passou a ser conhecido como “Os Turunas Pernambucanos”, onde cada um dos integrantes adotou o nome de um animal, foi quando José Luiz resolveu adotar o nome de Jararaca.

Com o conjunto excursionaram cantando “cocos” e “emboladas”, com seus trajes típicos percorrendo diversos lugares, e incentivado por Pixinguinha eles acabaram vindo para o Rio de Janeiro em 1922. Depois que o grupo foi desfeito, José Luiz e Severino resolveram formar a dupla Jararaca e Ratinho e começaram a conhecer o sucesso quando passaram a cantar embolada e também fazendo apresentações satíricas e humorísticas em São Paulo.

Seu primeiro disco aconteceu em 1929, através da gravadora Odeon com músicas regionais e excursionaram pelo interior. Em 1937 Jararaca compôs a clássica “Mamãe Eu Quero” em parceria com Vicente Paiva e seu sucesso foi tanto que ultrapassou as fronteiras brasileiras, sendo gravada por artistas internacionais como Bing Crosby e Carmem Miranda.

Trabalharam por quase uma década na Rádio Nacional, sempre como músicos caipiras e humoristas fazendo sucesso com diversas músicas. Nos anos 60 e 70 passaram a também atuar na televisão em diversos programas como Balança mas Não Cai, Uau e Alô Brasil, Aquele Abraço.

Após a morte de Ratinho em 1972, Jararaca continuou sua trajetória sozinho participando como cantor e humorista, inclusive no programa Chico City onde ele interpretou o papel do cangaceiro Sucuri e assim continuou suas atuações até sua morte em 1977.
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Principais Fontes Bibliográficas:
http://www.boamusicaricardinho.com/jararacaeratinho_29.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jararaca_e_Ratinho
http://radioboanova.com.br/clubeamigosdaboanova/jararaca-e-ratinho/
http://www.dicionariompb.com.br/jararaca-e-ratinho

Texto reproduzido do site: tvsinopse.kinghost.net

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Antônio Gonçalves da Silva - "Patativa do Assaré" (1909 - 2002)


Patativa do Assaré – o poeta do sertão

O poeta da roça             
Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de páia de mío.

Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.

Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.

Meu verso rastêro, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão.

Só canto o buliço da vida apertada,
Da lida pesada, das roça e dos eito.
E às vez, recordando a feliz mocidade,
Canto uma sodade que mora em meu peito.

Eu canto o cabôco com suas caçada,
Nas noite assombrada que tudo apavora,
Por dentro da mata, com tanta corage

Topando as visage chamada caipora.

Eu canto o vaquêro vestido de côro,
Brigando com o tôro no mato fechado,
Que pega na ponta do brabo novio,
Ganhando lugio do dono do gado.

Eu canto o mendigo de sujo farrapo,
Coberto de trapo e mochila na mão,
Que chora pedindo o socorro dos home,
E tomba de fome, sem casa e sem pão.

E assim, sem cobiça dos cofre luzente,
Eu vivo contente e feliz com a sorte,
Morando no campo, sem vê a cidade,
Cantando as verdade das coisa do Norte.

- Patativa do Assaré, em "Cante lá que eu canto cá". [Filosofia de um trovador nordestino].. (Organização Antônio Gonçalves da Silva). 5ª ed., Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1984. (grafia original).

  
Antônio Gonçalves da Silva (Serra de Santana CE, 5 de março de 1909 - Assaré CE 2002). Poeta e repentista. Filho dos agricultores Pedro Gonçalves Silva e Maria Pereira Silva, muda-se com a família, pouco depois de seu nascimento, para uma pequena propriedade nas proximidades de Assaré, Ceará. Em 1910, o poeta perde parcialmente a visão do olho direito, sequela de um sarampo. Com a morte do pai, em 1917, auxilia no sustento da casa, trabalhando em culturas de subsistência e na produção de algodão.

Frequenta a escola por apenas seis meses e descobre a literatura por meio de folhetos de cordel e de repentistas. Adquire um violão em 1925 e passa a dedicar-se à composição de versos musicados.  Viaja, em 1929, para Fortaleza e frequenta os salões literários do poeta Juvenal Galeno (1836 - 1931). Do Ceará parte para Belém, onde conhece o jornalista também cearense José Carvalho de Brito, responsável pela publicação de seus primeiros textos no jornal Correio do Ceará. Deve-se a Brito a alcunha de Patativa, utilizada pela primeira vez no capítulo que lhe dedica em seu livro O Matuto Cearense e o Caboclo do Pará.  A estreia de Assaré em livro ocorre em 1956, no Rio de Janeiro, com a publicação de Inspiração Nordestina, incentivado pelo latinista José Arraes de Alencar. Com a gravação, em 1964, de Triste Partida, por Luiz Gonzaga (1912 - 1982), e de Sina, em 1972, pelo cantor Raimundo Fagner (1949), amplia-se a visibilidade de sua obra. Em 1978, lança Cante Lá que Eu Canto Cá e se engaja na luta contra a ditadura militar. No ano seguinte, volta a morar em Assaré.

"Ah! O sertão é... o sertão é a riqueza natural que nós temos... é o ponto melhor da vida, para quem sabe ver é o sertão, pois ali tudo o que a natureza cria, tudo que é belo, que é bom, que é puro, nós temos pelo sertão[...] o diamante antes de ser lapidado... porque o diamante só é alguma coisa depois dele ser lapidado. Aí é que ele vai brilhar[...] mas o sertão é puro, tão puro quanto o diamante antes de seu trabalho[...]"

- Patativa do Assaré, em "Patativa do Assaré – Digo e não peço segredo". (Organização e prefácio Luiz Tadeu Feitosa). São Paulo: Editora Escrituras, 2001, p. 21 e 25.

Texto e imagens reproduzidos do site: bit.ly/2q9fpmt

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Jackson do Pandeiro (1919 - 1982)

Foto reproduzida do site: paraibacriativa.com.br

Jackson, um malandro nordestino.

Do alto da serra onde fica a cidade de Areia, em plena região do brejo paraibano, avista-se lá embaixo a cidade de Alagoa Grande, com a lagoa que dá nome à cidade brilhando à luz do sol nordestino, como uma colher de prata em cima de uma toalha verde. Pois foi em Alagoa Grande, em 31 de agosto de 1919, que nasceu José Gomes Filho, que mais tarde viria a se tornar conhecido como Jackson do Pandeiro. 

Queria ser sanfoneiro. Mas a sanfona era um instrumento caro, e sendo o pandeiro mais barato, foi esse que recebeu de presente da mãe, Flora Mourão, cantadora de coco, a quem desde cedo o menino ouvia cantar coco, tocando zabumba e ganzá. 

Aos 13 anos, com a morte do pai, veio com a mãe e os irmãos morar em Campina Grande, onde começou  a trabalhar como entregador de pão, engraxate e pequenos serviços. Na feira de Campina, entre um mandado e outro, assistia aos emboladores de coco e cantadores de viola. Ia muito ao cinema e tomou gosto pelos filmes de faroeste, admirando muito o ator Jack Perry. Nas brincadeiras de mocinho e bandido com os outros garotos, José transformava-se em Jack, nome pelo qual passou a ser conhecido. 

Aos dezessete anos, largou o trabalho na padaria para ser baterista no Clube Ipiranga. Em 1939, já formava dupla com José Lacerda, irmão mais velho de Genival Lacerda. Era Jack do Pandeiro. 

No o início da década de 40, Jackson foi morar em João Pessoa, onde continuou a tocar nos cabarés, e logo depois na Rádio Tabajara, onde ficou até 1946. 

Em 1948 foi para o Recife trabalhar na Rádio Jornal do Comércio Foi aí que o diretor do programa sugeriu que ele trocasse o Jack por Jackson, que era mais sonoro e causava mais efeito quando anunciado ao microfone.  

Somente em 1953, já com trinta e cinco anos, foi que Jackson gravou o seu primeiro grande sucesso: Sebastiana, de Rosil Cavalcanti. Logo depois, emplacou outro grande hit: Forró em Limoeiro, rojão composto por Edgar Ferreira.  
   
Foi na rádio pernambucana que ele conheceu Almira Castilho de Alburquerque, com quem se casou em 1956 vivendo com ela até 1967. Fizeram uma dupla de sucesso, ele cantando e ela dançando ao seu lado, tendo participado de dezenas de filmes nacionais. A paixão por Almira era tão grande que Jackson chegou a colocar várias músicas no nome dela. Depois doze anos de convivência, Jackson e Almira se separaram e ele casou com a baiana Neuza Flores dos Anjos, de quem também se separou pouco antes de falecer.  

No Rio, já trabalhando na Rádio Nacional, Jackson alcançou grande sucesso com O Canto da Ema, Chiclete com Banana, Um a Um e Xote de Copacabana. Os críticos ficavam abismados com a facilidade de Jackson em cantar os mais diversos gêneros musicais: baião, coco, samba-coco, rojão, além de marchinhas de carnaval. 

Músicos que o acompanharam como Dominguinhos e Severo dizem que ele era um grande “sanfoneiro de boca”, o que significa que apesar de não saber tocar o instrumento ele fazia com a boca tudo aquilo que queria que o sanfoneiro executasse no instrumento. O fato de ter tocado tanto tempo nos cabarés aprimorou sua capacidade jazzística. Também é famosa a sua maneira de dividir a música, e diz-se que o próprio João Gilberto aprendeu a dividir com ele.  
   
No palco, tinha uma ginga toda especial, uma mistura de malandro carioca com nordestino. Ficou famoso pelas umbigadas que trocava com a parceira e esposa Almira.  

Já com sessenta e três anos, sofrendo de diabetes, ao fazer um show em Santa Cruz de Capibaribe, sentiu-se mal, mas não quis deixar o palco. Já estava enfartado mas continuou cantando, tendo feito ainda mais dois shows nessas condições, apesar do companheiro Severo, que o acompanhou durante anos na sanfona,  ter insistido com ele para cancelar os compromissos: ele não permitiu. Indo depois cumprir outros compromissos em Brasília passou mal, tendo desmaiado no aeroporto e sendo transferido para o hospital. Dias depois, faleceu de embolia cerebral, em 10 de julho de 1982. 

Texto reproduzido do site:  jacksondopandeiro.clotildetavares.com.br