"A identidade alicerça-se em capacidades e em valores, no que somos capazes de compreender do mundo e no significado que damos às nossas vidas". (Sônia R.R.Rodrigues)

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Livro da Biografia de Rolando Boldrin

Sucesso. Artista marcou época nas telinhas quando comandou 
o 'Som Brasil', na TV Globo. (Foto: Daniel Teixeira/Estadão).

Exército. Soldado número 967 do batalhão em Quitaúna,
 em Osasco. (Foto: Acervo pessoal).

Rádio. Boldrin declama trechos de 'Brasil Caboclo'.
(Foto: Acervo pessoal).

Publicado originalmente no site do jornal Estadão, em 05 Julho 2017.

Biografia de Rolando Boldrin relembra sua trajetória na música, TV, cinema e teatro

Livro foi escrito pelos jornalistas Willian Corrêa e Ricardo Taira, ambos da TV Cultura

Por João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo.


Quando o jovem Rolando Boldrin, então com 16 anos, resolveu vender o violão da família para conseguir dinheiro e embarcar em uma aventura desconhecida rumo a São Paulo, a tal cidade grande, o pai, seu Amadeu, não pensou duas vezes: “O que é que você fez? Pois vamos buscar de volta esse violão agora, menino”, afirmou ele sem precisar pedir que o filho o seguisse. “Devolva o violão dele. Tome aqui o seu dinheiro”, disse o alto e imponente homem grisalho ao alfaiate Chiquinho Cesário, um conhecido boêmio da pacata cidade de São Joaquim da Barra, a 396 quilômetros da capital paulista.

Na noite seguinte, já com o violão em segurança, o pai cedeu aos encantos dos pequenos e tristonhos olhos azuis do determinado Boldrin. “Tome cuidado naquela cidade, caboclinho, e tenha juízo”, recomendou. Ao pagar a passagem de trem do menino para a chamada selva de pedra, sem permitir que ele se desfizesse de seu bem mais precioso, o violão de seis cordas, seu Amadeu, inconscientemente, traçou para sempre a história de um dos personagens mais intrigantes da cultura popular brasileira. “Eu não tinha um tostão no bolso. Sobraram só alguns trocados para comprar dois pastéis. Eu e outros dois amigos chegamos a dormir na rua”, lembra Boldrin.

O ‘senhor Brasil’ foi para a metrópole atrás de seus sonhos. Queria ser ator de rádio, televisão e teatro. Músico? Quem sabe. Desinibido e com um talento nato para as artes cênicas, Boldrin almejava o estrelato. Foi justamente em São Paulo que virou gente grande. Trabalhou como sapateiro, garçom e até frentista. Aos 18, serviu o Exército. “Meu pai, o seu Amadeu, sempre me dizia que todo sujeito precisa de uma ocupação. Para ele, com 16 anos já era homem adulto”, lembra Boldrin, que recebeu a reportagem do Estado em sua casa, na região da Granja Viana, para falar sobre seu novo livro. Toda a trajetória do músico, ator e apresentador é contada em detalhes na biografia A História de Rolando Boldrin - Sr. Brasil, escrita pelos jornalistas Willian Corrêa e Ricardo Taira, ambos da TV Cultura, emissora na qual Boldrin comanda desde 2005 o programa Sr. Brasil. “Não sou apresentador. Não gosto dessa definição. Nem músico. Sou um ator que canta. Bem abaixo de um Moacir Franco, por exemplo”, pondera.

A entrada para o mundo artístico demorou para se concretizar. Ela veio apenas no fim da década de 1950, quando foi aprovado em um teste para a Tupi, extinta emissora de rádio e TV. Alugou um quartinho modesto bem perto do novo local de trabalho, no Sumaré, zona oeste de São Paulo, e dedicou-se fielmente ao ofício. Apanhou. E como apanhou. Na vida e nas telas. Passou a atuar como figurante no seriado Falcão Negro, que tinha como protagonista o ator José Parisi. Parisi, o chamado Zorro brasileiro, era forte. Ele não gostava de dublês e exigia que os sopapos e pontapés das cenas fossem reais. “Rapaz, como eu apanhava. Soco pra lá, chute pra cá. Perguntei a Deus se tinha vindo a São Paulo só para apanhar?”, conta ele.

Passado algum tempo, Rolando Boldrin começou a se firmar na Tupi e contracenou com grandes nomes. De Luiz Gustavo e Lima Duarte, passando por Laura Cardoso, e a jovem atriz estreante Susana Vieira. Boldrin chegou a participar da primeira gravação em tape da TV brasileira. Um feito histórico para um rapaz recém-saído de uma pequena e longínqua cidade do interior de São Paulo.

De tempos em tempos, ele voltava a São Joaquim da Barra para visitar os amigos e a família. Seu companheiro mais fiel era o Dito Preto, sim aquele mesmo que ilustra os inúmeros "causos" contados por Boldrin na televisão. Engraxate da barbearia da praça, Dito Preto tinha uma personalidade única. Certa vez ele se apaixonou por uma moça da cidade e queria se declarar a ela. Numa noite de bebedeira, Boldrin e o amigo foram até a paróquia da cidade para pegar a imagem de São Joaquim e cantarolar em frente à porta da pretendente, que tinha uma família muito religiosa. Os amigos ficaram tão bêbados que não conseguiram fazer a serenata. A história chegou no ouvido do delegado, que prendeu Dito Preto. Boldrin precisou voltar de São Paulo para explicar o ocorrido e devolver a imagem de São Joaquim. "Aquele seu irmão artista está na cidade?", indagou o novo padre da paróquia à Irma de Boldrin. "É bom saber, assim escondo todas as imagens daqui", complementou. "Fiquei com fama de sequestrador de santo", gargalha Boldrin.

Música. Depois de se aventurar pelo teatro e gravar a última novela, Os Imigrantes, exibida pela TV Bandeirantes, Rolando Boldrin passou a se dedicar apenas à vida musical. Voltou aos velhos tempos da dupla Boy e Formiga, que tinha com o irmão ainda na infância, e investiu nas composições. O casamento com a primeira mulher, a cantora Lurdinha Pereira, fortaleceu tal atividade.

A consagração de Boldrin, no entanto, veio com o programa Som Brasil, exibido nas manhãs da TV Globo. Recusado outrora por outras emissoras, o projeto de Boldrin acabou decolando. Foi com ele, inclusive, que a música de raiz e a diversidade cultural dos cantores brasileiros ganharam força. “Sempre bati o pé para fazer as coisas do meu jeito, lá na Globo. Eu recusei muitos artistas por achá-los ruins. Toda a produção do programa, assim como o do Sr. Brasil, na Cultura, é minha. Eu escolhia as músicas e os artistas. Eles bem que tentaram pressionar, mas eu não deixava. Foram três anos incríveis”, conta ainda Rolando Boldrin.

A HISTÓRIA DE ROLANDO BOLDRIN - SR. BRASIL
Autor: Willian Corrêa e Ricardo Taira
Editora: Contexto (224 págs.;R$ 45)

Texto e imagens reproduzidos do site: cultura.estadao.com.br

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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Biografia - Alvarenga e Ranchinho


Biografia - Alvarenga e Ranchinho

Murilo Alvarenga nasceu em Itaúna-MG no dia 22/05/1912 e faleceu em 18/01/1978. Diésis dos Anjos Gaia, o Ranchinho, nasceu em Jacareí-SP no dia 23/05/1913 e faleceu no dia 05/07/1991.

Antes de iniciar o resumo biográfico, é preciso lembrar que o Alvarenga foi apenas um e que, no entanto, por força das circunstâncias, acabou fazendo dupla com "3 Ranchinhos"!!

O "primeiro Ranchinho", portanto, foi Diésis dos Anjos Gaia, que cantou com Alvarenga de 1933 a 1938, retornando no ano seguinte e que, após outros sumiços, abandonou a dupla em 1965.

O "segundo Ranchinho" foi Delamare de Abreu (nascido em São Paulo-SP no dia 28/10/1920), irmão de Murilo Alvarenga por parte de mãe, e que fez dupla com ele por dois meses na década de 50. Delamare mais tarde deixou o palco e passou a ser Pastor Protestante.

E o "terceiro Ranchinho", que foi quem ficou mais tempo ao lado de Murilo, foi Homero de Souza Campos (1930-1997), conhecido também como "Ranchinho da Viola" e como "Ranchinho II" (apesar de ter sido o "terceiro"). Homero cantou com Murilo Alvarenga de 1965 até o seu falecimento em 1978.

O "Ranchinho da Viola" foi o mesmo Homero que também integrou o "Trio Mineiro", juntamente com Bolinha e Cosmorama e que chegou a gravar 12 discos de 78 RPM. E, com Alvarenga, Homero gravou 15 discos, entre 78 RPM e LPs.

Chegaram a gravar 30 LPs e 600 discos em 78 rotações em 50 anos de carreira. Ocuparam lugar de destaque na música sertaneja brasileira, significando grande parte do faturamento das gravadoras. Foram importantes atrações no Cassino da Urca, no Rio de Janeiro, bem como nas programações de rádio da época. Em suas paródias e músicas, criticavam o governo de Getulio Vargas e chegaram a incomodar tanto sua polícia que foram várias vezes presos.

A dupla participou do primeiro filme falado feito em São Paulo, Fazendo Fita, em 1935, levada por Ariowaldo Pires, o Capitão Furtado. Fizeram também Tererê Não Resolve, em 1938, Laranja da China e Céu Azul, em 1940. Sobrinho de Cornélio Pires, quem primeiro gravou música sertaneja, Ariowaldo uniu-se à dupla e lançou no rádio a Trinca do Bom Humor. O trio estreou no disco em 1936, com Itália e Abissínia, uma sátira sobre o conflito entre os dois países. Zombaram da instituição do divórcio em O Divórcio vem Aí e divertiram o público quando na troca da moeda em 1943 com Você Já Viu o Cruzeiro? Em cima do problema de combustível durante a guerra, fizeram Racionamento da Gasolina.

Criticaram todo mundo, Hitler, Mussolini e políticos locais de vários escalões. Por causa de Liga dos Bichos, onde em 1936 relacionaram os políticos aos animais, tiveram problemas com a censura, que viu na letra uma alusão a Osvaldo Aranha, um dos principais ministros de Getulio. Com História de um Soldado, letra da autoria de Alvarenga, foram detidos pela polícia e levados por Alzira Vargas, filha de Getulio, à presença do presidente para que apresentassem a paródia. Embaraçados, cantaram a música até o fim, cuja letra referia-se a tramitação de um documento pelo exército até chegar às mãos do Presidente da República. Getulio sorriu, afirmou não ver ofensa nos versos e liberou a dupla, desde que não ferissem a moral ou o físico das pessoas.

Entre seus trabalhos, destaca-se também a valsa humorística Drama de Angélica, da autoria de Alvarenga. Em 1956, gravaram para a Odeon os baiões Tá no Papo e Guaratinguetá, ambos de autoria da dupla. Encerraram a carreira de paródias em 1966, com uma gozação com a música de Geraldo Vandré, Disparada.

Texto reproduzido do site: letradamusica.net/alvarenga-ranchinho

domingo, 23 de julho de 2017

Jararaca e Ratinho - Dupla Sertaneja


Jararaca e Ratinho - Dupla Sertaneja

Jararaca e Ratinho foi uma dupla sertaneja, compositores e humoristas formada pelos músicos José Luiz Rodrigues Calazans (Jararaca) que nasceu em Maceió, no dia 29 de setembro de 1896 e faleceu no Rio de Janeiro no dia 11 de outubro de 1977, e por Severino Rangel de Carvalho (Ratinho), nascido em Itabaiana no dia 13 de abril de 1896 e falecido em Duque de Caxias, no dia 8 de setembro de 1972.

José Luiz Rodrigues Calazans, o Jararaca, era filho do poeta e professor muito conhecido Ernesto Alves Rodrigues e começou a tocar sua viola aos 8 anos de idade, inspirado em seus irmãos que também eram violeiros e seresteiros.

Ainda criança conviveu muito com os boiadeiros que vinham das Minas Gerais, onde ouvia diversas estórias, que mais tarde iriam influenciar bastante a sua música. Em 1915 aproximadamente começou atuar juntamente com um grupo teatral na cidade Piranhas, em Alagoas. Dizem também que integrou o bando de Lampião por quase dois anos, e no início da década de 20 resolveu tentar a carreira artística.

Severino Rangel, o Ratinho, ficou órfão ainda bebê e acabou sendo criado por seu tios e padrinhos e foi sua tia a incentivar o sobrinho na música. Começou a tocar ainda criança na Banda Musical de Itabaiana, no Estado da Bahia, e em 1914 mudou-se para Recife onde integrou a orquestra sinfônica local tocando trompete, saxofone e ainda dava aulas numa escola de aprendizes.

Por volta de 1919 Severino Rangel (Ratinho) e José Calazans (Jararaca) se conheceram quando passaram a integrar o Bloco dos Boêmios. Pouco tempo depois em 1921, formaram o grupo “Os Boêmios”  e tempos depois o grupo passou a ser conhecido como “Os Turunas Pernambucanos”, onde cada um dos integrantes adotou o nome de um animal, foi quando José Luiz resolveu adotar o nome de Jararaca.

Com o conjunto excursionaram cantando “cocos” e “emboladas”, com seus trajes típicos percorrendo diversos lugares, e incentivado por Pixinguinha eles acabaram vindo para o Rio de Janeiro em 1922. Depois que o grupo foi desfeito, José Luiz e Severino resolveram formar a dupla Jararaca e Ratinho e começaram a conhecer o sucesso quando passaram a cantar embolada e também fazendo apresentações satíricas e humorísticas em São Paulo.

Seu primeiro disco aconteceu em 1929, através da gravadora Odeon com músicas regionais e excursionaram pelo interior. Em 1937 Jararaca compôs a clássica “Mamãe Eu Quero” em parceria com Vicente Paiva e seu sucesso foi tanto que ultrapassou as fronteiras brasileiras, sendo gravada por artistas internacionais como Bing Crosby e Carmem Miranda.

Trabalharam por quase uma década na Rádio Nacional, sempre como músicos caipiras e humoristas fazendo sucesso com diversas músicas. Nos anos 60 e 70 passaram a também atuar na televisão em diversos programas como Balança mas Não Cai, Uau e Alô Brasil, Aquele Abraço.

Após a morte de Ratinho em 1972, Jararaca continuou sua trajetória sozinho participando como cantor e humorista, inclusive no programa Chico City onde ele interpretou o papel do cangaceiro Sucuri e assim continuou suas atuações até sua morte em 1977.
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Principais Fontes Bibliográficas:
http://www.boamusicaricardinho.com/jararacaeratinho_29.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jararaca_e_Ratinho
http://radioboanova.com.br/clubeamigosdaboanova/jararaca-e-ratinho/
http://www.dicionariompb.com.br/jararaca-e-ratinho

Texto reproduzido do site: tvsinopse.kinghost.net

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Antônio Gonçalves da Silva - "Patativa do Assaré" (1909 - 2002)


Patativa do Assaré – o poeta do sertão

O poeta da roça             
Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de páia de mío.

Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.

Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.

Meu verso rastêro, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão.

Só canto o buliço da vida apertada,
Da lida pesada, das roça e dos eito.
E às vez, recordando a feliz mocidade,
Canto uma sodade que mora em meu peito.

Eu canto o cabôco com suas caçada,
Nas noite assombrada que tudo apavora,
Por dentro da mata, com tanta corage

Topando as visage chamada caipora.

Eu canto o vaquêro vestido de côro,
Brigando com o tôro no mato fechado,
Que pega na ponta do brabo novio,
Ganhando lugio do dono do gado.

Eu canto o mendigo de sujo farrapo,
Coberto de trapo e mochila na mão,
Que chora pedindo o socorro dos home,
E tomba de fome, sem casa e sem pão.

E assim, sem cobiça dos cofre luzente,
Eu vivo contente e feliz com a sorte,
Morando no campo, sem vê a cidade,
Cantando as verdade das coisa do Norte.

- Patativa do Assaré, em "Cante lá que eu canto cá". [Filosofia de um trovador nordestino].. (Organização Antônio Gonçalves da Silva). 5ª ed., Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1984. (grafia original).

  
Antônio Gonçalves da Silva (Serra de Santana CE, 5 de março de 1909 - Assaré CE 2002). Poeta e repentista. Filho dos agricultores Pedro Gonçalves Silva e Maria Pereira Silva, muda-se com a família, pouco depois de seu nascimento, para uma pequena propriedade nas proximidades de Assaré, Ceará. Em 1910, o poeta perde parcialmente a visão do olho direito, sequela de um sarampo. Com a morte do pai, em 1917, auxilia no sustento da casa, trabalhando em culturas de subsistência e na produção de algodão.

Frequenta a escola por apenas seis meses e descobre a literatura por meio de folhetos de cordel e de repentistas. Adquire um violão em 1925 e passa a dedicar-se à composição de versos musicados.  Viaja, em 1929, para Fortaleza e frequenta os salões literários do poeta Juvenal Galeno (1836 - 1931). Do Ceará parte para Belém, onde conhece o jornalista também cearense José Carvalho de Brito, responsável pela publicação de seus primeiros textos no jornal Correio do Ceará. Deve-se a Brito a alcunha de Patativa, utilizada pela primeira vez no capítulo que lhe dedica em seu livro O Matuto Cearense e o Caboclo do Pará.  A estreia de Assaré em livro ocorre em 1956, no Rio de Janeiro, com a publicação de Inspiração Nordestina, incentivado pelo latinista José Arraes de Alencar. Com a gravação, em 1964, de Triste Partida, por Luiz Gonzaga (1912 - 1982), e de Sina, em 1972, pelo cantor Raimundo Fagner (1949), amplia-se a visibilidade de sua obra. Em 1978, lança Cante Lá que Eu Canto Cá e se engaja na luta contra a ditadura militar. No ano seguinte, volta a morar em Assaré.

"Ah! O sertão é... o sertão é a riqueza natural que nós temos... é o ponto melhor da vida, para quem sabe ver é o sertão, pois ali tudo o que a natureza cria, tudo que é belo, que é bom, que é puro, nós temos pelo sertão[...] o diamante antes de ser lapidado... porque o diamante só é alguma coisa depois dele ser lapidado. Aí é que ele vai brilhar[...] mas o sertão é puro, tão puro quanto o diamante antes de seu trabalho[...]"

- Patativa do Assaré, em "Patativa do Assaré – Digo e não peço segredo". (Organização e prefácio Luiz Tadeu Feitosa). São Paulo: Editora Escrituras, 2001, p. 21 e 25.

Texto e imagens reproduzidos do site: bit.ly/2q9fpmt

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Jackson do Pandeiro (1919 - 1982)

Foto reproduzida do site: paraibacriativa.com.br

Jackson, um malandro nordestino.

Do alto da serra onde fica a cidade de Areia, em plena região do brejo paraibano, avista-se lá embaixo a cidade de Alagoa Grande, com a lagoa que dá nome à cidade brilhando à luz do sol nordestino, como uma colher de prata em cima de uma toalha verde. Pois foi em Alagoa Grande, em 31 de agosto de 1919, que nasceu José Gomes Filho, que mais tarde viria a se tornar conhecido como Jackson do Pandeiro. 

Queria ser sanfoneiro. Mas a sanfona era um instrumento caro, e sendo o pandeiro mais barato, foi esse que recebeu de presente da mãe, Flora Mourão, cantadora de coco, a quem desde cedo o menino ouvia cantar coco, tocando zabumba e ganzá. 

Aos 13 anos, com a morte do pai, veio com a mãe e os irmãos morar em Campina Grande, onde começou  a trabalhar como entregador de pão, engraxate e pequenos serviços. Na feira de Campina, entre um mandado e outro, assistia aos emboladores de coco e cantadores de viola. Ia muito ao cinema e tomou gosto pelos filmes de faroeste, admirando muito o ator Jack Perry. Nas brincadeiras de mocinho e bandido com os outros garotos, José transformava-se em Jack, nome pelo qual passou a ser conhecido. 

Aos dezessete anos, largou o trabalho na padaria para ser baterista no Clube Ipiranga. Em 1939, já formava dupla com José Lacerda, irmão mais velho de Genival Lacerda. Era Jack do Pandeiro. 

No o início da década de 40, Jackson foi morar em João Pessoa, onde continuou a tocar nos cabarés, e logo depois na Rádio Tabajara, onde ficou até 1946. 

Em 1948 foi para o Recife trabalhar na Rádio Jornal do Comércio Foi aí que o diretor do programa sugeriu que ele trocasse o Jack por Jackson, que era mais sonoro e causava mais efeito quando anunciado ao microfone.  

Somente em 1953, já com trinta e cinco anos, foi que Jackson gravou o seu primeiro grande sucesso: Sebastiana, de Rosil Cavalcanti. Logo depois, emplacou outro grande hit: Forró em Limoeiro, rojão composto por Edgar Ferreira.  
   
Foi na rádio pernambucana que ele conheceu Almira Castilho de Alburquerque, com quem se casou em 1956 vivendo com ela até 1967. Fizeram uma dupla de sucesso, ele cantando e ela dançando ao seu lado, tendo participado de dezenas de filmes nacionais. A paixão por Almira era tão grande que Jackson chegou a colocar várias músicas no nome dela. Depois doze anos de convivência, Jackson e Almira se separaram e ele casou com a baiana Neuza Flores dos Anjos, de quem também se separou pouco antes de falecer.  

No Rio, já trabalhando na Rádio Nacional, Jackson alcançou grande sucesso com O Canto da Ema, Chiclete com Banana, Um a Um e Xote de Copacabana. Os críticos ficavam abismados com a facilidade de Jackson em cantar os mais diversos gêneros musicais: baião, coco, samba-coco, rojão, além de marchinhas de carnaval. 

Músicos que o acompanharam como Dominguinhos e Severo dizem que ele era um grande “sanfoneiro de boca”, o que significa que apesar de não saber tocar o instrumento ele fazia com a boca tudo aquilo que queria que o sanfoneiro executasse no instrumento. O fato de ter tocado tanto tempo nos cabarés aprimorou sua capacidade jazzística. Também é famosa a sua maneira de dividir a música, e diz-se que o próprio João Gilberto aprendeu a dividir com ele.  
   
No palco, tinha uma ginga toda especial, uma mistura de malandro carioca com nordestino. Ficou famoso pelas umbigadas que trocava com a parceira e esposa Almira.  

Já com sessenta e três anos, sofrendo de diabetes, ao fazer um show em Santa Cruz de Capibaribe, sentiu-se mal, mas não quis deixar o palco. Já estava enfartado mas continuou cantando, tendo feito ainda mais dois shows nessas condições, apesar do companheiro Severo, que o acompanhou durante anos na sanfona,  ter insistido com ele para cancelar os compromissos: ele não permitiu. Indo depois cumprir outros compromissos em Brasília passou mal, tendo desmaiado no aeroporto e sendo transferido para o hospital. Dias depois, faleceu de embolia cerebral, em 10 de julho de 1982. 

Texto reproduzido do site:  jacksondopandeiro.clotildetavares.com.br  


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Registro: Nordeste festeja 100 anos de Gonzagão (2012)



Ana Batista de Jesus e Januário José dos Santos.

Publicação originária do blog PMA, em 29 de junho de 2012.

Nordeste festeja 100 anos de Gonzagão
Por Illton Duarte (E-Aju/Secom PMA).

O ritmo da sanfona, o compasso da zabumba e do triângulo dão o sinal. Já é São João no Nordeste, que dessa vez tem um motivo a mais para comemorar. É centenário do Rei do Baião, que se estivesse vivo completaria 100 anos, em dezembro deste ano. Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu em Exu, PE a 700 km de Recife. O segundo dos nove filhos do casal Januário José dos Santos, o Mestre Januário, sanfoneiro de 8 baixos famoso na região, e Ana Batista de Jesus, conhecida por Santana. Aprendeu desde muito cedo a ter gosto pela música vendo e ouvindo as apresentações do pai, a quem ajudava tocando zabumba e cantando em feira e festas religiosas.

Foi através de um concurso de calouros no rádio que Gonzaga ganhou o primeiro prêmio de muitos na sua carreira musical. O prêmio foi com o sucesso ´Vira e Mexe´, música de sua autoria. A partir daí sua carreia começou a deslanchar para o sucesso, onde passou a participar de vários programas de rádio e gravar discos sempre com repertório de músicas nordestinas e a compor varias canções. Na época foi contratado pela rádio clube do Brasil, onde fez várias participações e, logo após, foi contratado pela rádio Tamoio. Anos depois foi contratado pela rádio Nacional, onde seguiu compondo mais sucessos.

Acompanhado de sua sanfona branca, o velho Lua, como também era conhecido, foi o primeiro músico nordestino a assumir sua nordestinidade, vestindo gibão e chapéu de couro - trajes típicos da figura do vaqueiro. Levou a alegria das festas juninas e dos forrós pé-de-serra, bem como a pobreza, as tristezas e as injustiças do Sertão nordestino para o resto do país. Em uma época em que a maioria das pessoas desconhecia o xote, o xaxado e o baião, cantou as dores e os amores de um povo sofrido, que ainda não tinha voz, diante da terra árida e seca.

"Quando oiei a terra ardendo,
Qual fogueira de São João,
Eu perguntei a Deus do céu, uai,
Por que tamanha judiação...

Que braseiro, que fornáia,
Nem um pé de prantação,
Por farta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão...”

Luiz Gonzaga cantou ´A vida do viajante e suas recordações´:

“Minha vida é andar
Por esse país
Pra ver se um dia
Descanso feliz
Guardando as recordações
Das terras onde passei
Andando pelos sertões
E dos amigos que lá deixei...”

Cantou também o ´Xote das Meninas´:

“Mandacaru quando fulora na seca
É o sinal que a chuva chega no sertão
Toda menina que enjoa da boneca
é sinal que o amor já chegou no coração
Meia comprida, num qué mais sapato baixo
Vestido bem cintado, não quer mais vestir timão...”

Luiz Gonzaga é considerado uma das figuras mais importantes da música popular brasileira. Admirado por grandes músicos, como Chiquinho do Acordeão, Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Elba Ramalho, Caetano Veloso, entre outros. Suas músicas servem de inspiração até hoje para a maioria das quadrilhas juninas espalhadas por todo país e estão presentes em praticamente todos os repertórios juninos.

Em depoimento extraído do livro ´Vida do Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga´, o cantor e compositor Gilberto Gil afirma ser discípulo fiel do Gonzagão. “Seu nome se inscreve na galeria dos grandes inventores da música popular brasileira. Eu, como discípulo e devoto apaixonado do grande mestre do Araripe, associo-me às eternas homenagens que a História continuada prestará ao nosso Rei do Baião”, revela.

Já para Chiquinho do Acordeão, o velho Lua representa toda a música nordestina, e através dele vieram vários sanfoneiros. “Luiz Gonzaga deixou uma descendência artística, como Dominguinhos, Oswaldinho e toda uma geração de sanfoneiros que está atuando por aí. Abriu, também, caminhos para Jackson de Pandeiro e para os artistas nordestinos quem vêm para o Sul. Como criador e estilista, não há ninguém que se compare, até agora, àquele que é chamado até hoje de Rei do Baião”, comenta.

Atualmente é apontado pela crítica como um dos nomes mais importantes do cenário musical de todos os tempos. Ao lado de grandes parceiros de composição, como Zé Dantas e o Humberto Teixeira, Rei do Baião eternizou canções como Asa Branca, Vozes da Seca, Assum Preto, Qui Nem Jiló e A Triste Partida. Outras parcerias que tiveram êxito foram Tá Bom Demais (com Onildo de Almeida), Danado de Bom (com João Silva), Dezessete e Setecentos e Cortando o Pano (ambas com Miguel Lima), parcerias que levou ao mundo a riqueza dos ritmos nordestinos.

O consagrado Rei do Baião tocou em Paris em 85 e ganhou o prêmio Shell de Música Popular em 87. Seu som atravessou varias gerações e foi reconhecido e apreciado não só pelo povo, mas também pela mídia. Foi tocando sanfona, instrumento tão pouco ilustre e com muita simplicidade e dignidade, que o Velho Lua conseguiu chegar ao auge de sua fama. A música brasileira e a cultura nordestina só têm a agradecer.

Em entrevista à imprensa, antes de finalizar seu último show no Recife, o Rei do Baião proferiu estas palavras: “Quero ser lembrado como o sanfoneiro que amou e cantou muito seu povo, o sertão; que cantou as aves, os animais, os padres, os cangaceiros, os retirantes, os valentes, os covardes, o amor. Este sanfoneiro viveu feliz por ver o seu nome reconhecido por outros poetas. Quero ser lembrado como o sanfoneiro que cantou muito o seu povo, que foi honesto, que criou filhos, que amou a vida, deixando um exemplo de trabalho, de paz e amor. Gostaria que lembrassem que sou filho de Januário e dona Santana. Gostaria que lembrassem muito de mim; que esse sanfoneiro amou muito seu povo, o Sertão. Decantou as aves, os animais, os padres, os cangaceiros, os retirantes. Decantou os valentes, os covardes e também o amor”.

Luiz Gonzaga morreu em Recife(PE) no dia 2 de agosto de 1989, deixando um vasto legado musical.

Veja mais em: http://www.reidobaiao.com.br/
Fontes de pesquisa:
fabiomota1977.wordpress.com

Imagens:
jarrimdefulo.blogspot.com.br
forroemvinil.com

blogln.ning.com

Texto e imagens reproduzidos do blog: aracajuqualidadevida.blogspot.com.br

segunda-feira, 9 de março de 2015

Inezita Barroso (1925 - 2015).


Morre em SP, aos 90 anos, a cantora Inezita Barroso
Ela apresentou o programa 'Viola, Minha
Viola', na TV Cultura, por mais de 30 anos.

A vida e a carreira de Inezita Barroso

Inezita Barroso na década de 50.
Foto: CEDOC TV Cultura.

Publicado originalmente no site tvcultura, em 03/03/15.

A vida e a carreira de Inezita Barroso.
Redação cmais+ | edição Rita Albuquerque.

Nascida no bairro da Barra Funda, em São Paulo, Inezita Barroso, ou Inez Magdalena Aranha de Lima, começou a cantar e estudar violão aos sete anos de idade. Aos 11, iniciou seu aprendizado de piano. Desde a infância, tomou gosto pelo universo rural. Seu pai, que tinha um importante cargo na Estrada de Ferro Sorocabana, incutiu na menina o gosto pelas viagens e proporcionou o contato com Raul Torres, com quem Inezita aprendeu várias melodias no violão.

A carreira profissional começou no início da década de 50, durante um recital no Teatro Santa Isabel, na capital pernambucana, o qual lhe rendeu um compromisso com a Rádio Clube do Recife. A paixão pela música de raiz fez com que a paulistana, por meio de seu trabalho, espalhasse esse rico pedaço do folclore brasileiro pelos cantos do país. O tema, inclusive, fez parte de cursos e palestras ministrados por ela ao longo dos mais de 60 anos de carreira dedicados ao rádio, ao cinema, ao teatro e à televisão.

Como atriz, atuou em sete filmes, recebendo o Prêmio Saci, um dos mais cobiçados da época, por sua atuação em Mulher de Verdade. É uma das cantoras mais premiadas do Brasil, sendo detentora de mais de 200 prêmios, entre eles o Prêmio Sharp de Música na categoria Melhor Cantora Regional, o Grande Prêmio do Júri do Prêmio Movimento de Música, em homenagem aos 47 anos de carreira, e o Prêmio Roquette Pinto como Melhor Cantora de Rádio da Música Popular Brasileira. Foram 80 discos com mais de 900 músicas gravadas.

Inezita Barroso já se apresentou com violão e viola ao lado de orquestras regidas por Hervé Cordovil, Guerra-Peixe, Gabriel Migliori, Ciro Pereira, Radamés Gnattali, Rui Torneze, entre outros. Na televisão, sua carreira é longa. Começou junto com a inauguração da TV Record de São Paulo, sendo a primeira cantora contratada. Protagonizou programas ao vivo na TV Tupi, também de São Paulo, e em outras emissoras do Brasil, como TV Rio, Tupi do Rio de Janeiro, TV Itapuã da Bahia, TV Jornal do Comércio do Recife, TV Farroupilha de Porto Alegre, além de participações em canais do Pará, Amazonas, Maranhão, Minas Gerais etc.

Na TV Cultura, Inezita apresenta o Viola, Minha Viola há 35 anos. No contexto audiovisual, o programa é a principal fonte de registro da música caipira e sua evolução recente. Tornou-se um templo de resistência e de audiência. As mais de 1.500 gravações são capazes de registrar a enormidade de grupos folclóricos existentes no país: folias de reis, reisados, batuques, catiras, cururus e repentes.

Em 2013, a cantora paulistana inspirou a biografia Inezita Barroso – A História de Uma Brasileira, escrita pelo jornalista Arley Pereira. Um ano depois, falou sobre a sua vida ao também jornalista Carlos Eduardo Oliveira, autor do livro Inezita Barroso – Rainha da Música Caipira. Recentemente, aos 89 anos de idade, foi eleita pela Academia Paulista de Letras.
Já foi enredo de escolas de samba de São Paulo, como Oba-Oba de Barueri, Cominados do Sapopemba, Pérola Negra, Iracema Meu Grande Amor e Mocidade de Paulínia, além de desfilar como convidada da Gaviões da Fiel.

Texto e imagem reproduzidos do site: tvcultura.cmais.com.br/inezitabarroso

Assista ao documentário Inezita, a Voz e a Viola, produzido pelos alunos de comunicação da ECA-USP com apoio da TV Cultura,

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Os Guardiões da Cultura Popular

Tião Paineiras de Tiradentes/MG.
Foto: Lidio Parente.

Os Guardiões da Cultura Popular.
Por Benita Prieto.

Falar em literatura oral no Brasil é falar de um país que muitas pessoas supõem que não mais existe. O processo de desenvolvimento fez com que várias manifestações culturais deixassem de ser entendidas como tal. Vejamos o caso do Carnaval, possivelmente a maior festa popular do mundo, nela os foliões entregam-se aos seus desejos genuínos e primitivos sem saber que refazem, talvez atavicamente, o mesmo que fizeram todas as gerações passadas.

Especificamente com relação à literatura oral, andamos nos afastando também por acreditar que tudo são “causos”, lendas, superstições. Mas se temos a oportunidade de sentar ao redor de uma fogueira, toda essa ancestralidade nos penetra e logo passamos a contar as histórias ouvidas dos nossos avós.

A literatura oral está conotada com o passado de gerações e famílias. Nosso país tem uma miscigenação enorme e que varia de acordo com a região brasileira, pois somos a mistura de povos europeus, africanos, indígenas e asiáticos. Esse caldeirão de culturas possibilita a existência de muitas comunidades narrativas. Se tomarmos como exemplo uma favela do Rio de Janeiro sabemos que ali podemos ter histórias de várias partes do Brasil, devido à migração interna na busca de melhores condições de vida. Por isso, é fundamental fomentar nos jovens o desejo de preservar as histórias que são particulares da comunidade narrativa a que pertencem. Eles devem ser estimulados para que tragam as histórias que conhecem e passem a contá-las em todos os espaços possíveis. E aí podemos incluir a tv, o rádio, a internet, o cinema. Os jovens são sem dúvida o nosso maior investimento para a continuidade desse elo, neles devemos apostar.

Mas é preciso ter técnica para fazer a recolha dos contos. É importante não interferir na hora da narração, coletar o conto no local onde normalmente é contato e não acreditar na memória ou na própria escrita, gravando tudo para a futura transcrição. Existem muitos livros que mostram textos recolhidos onde em primeiro lugar está o texto tal qual foi dito pelo contador é a seguir vêm uma tradução ou versão feita pelo pesquisador. Essa é uma boa maneira de registro. Claro que o contador popular pode sofrer interferência da platéia, seguindo outros rumos na hora da narração, mas sempre haverá uma estrutura mínima respeitada por ele. Essa estrutura, juntamente com a dicção que foi preservada, será a nossa fonte de estudo e a nossa matriz.

Pena que a escola, no nosso país, normalmente é muito preconceituosa com todas as manifestações populares. Podemos incluir nesse pensamento desde a escola elementar até a universidade. A literatura oral não é valorizada ou então é minimizada a mais simples estrutura possível. Imaginem se podemos dizer que o lobisomem possa representar, num país continental como o Brasil, todos os personagens do folclore que são peludos e comem gente. É uma redução apenas para dizer que o folclore está sendo ensinado na escola e ainda num determinado mês do ano, o de agosto, que tem no dia 24 a sua comemoração.. Como se nos outros dias não usássemos os ensinamentos recebidos das gerações que nos precederam. O problema é um total desconhecimento da importância do tema.

É bom lembrar que existe um diálogo entre a literatura oral e a literatura escrita. Os grandes escritores do mundo bebem de suas fontes naturais, constroem releituras, alargam visões. E no Brasil tivemos alguns autores/pesquisadores que contribuíram de forma decisiva nesse diálogo. Temos várias gerações criadas com a literatura mágica e essencialmente brasileira de Monteiro Lobato, o criador do sítio do pica-pau amarelo. Temos também Mário de Andrade e Luís da Câmara Cascudo, cada qual do seu jeito, valorizando os saberes do povo para construir no nosso imaginário a força da narrativa. O ideal é nunca fechar as portas do coração, nunca esquecer a aldeia de onde viemos.

Já que não dá para fazer uma divisão entre literatura oral e literatura escrita os contadores de histórias urbanos podem aproximar esses dois mundos, colocando a literatura escrita ao redor de uma fogueira mítica e valorizando a literatura oral dando-lhe o status de saber.

O escritor João Guimarães Rosa, questionado numa entrevista ao contar sobre seu processo de criação, revela: “Os homens do sertão, somos fabulistas por natureza. Está no sangue narrar histórias; já no berço recebemos esse dom para toda a vida. Desde pequenos, estamos constantemente escutando as narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e as lendas, e também nos criamos em um mundo que às vezes pode se assemelhar a uma lenda cruel. Deste modo à gente se habitua, e narra estórias que correm por nossas veias e penetram em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de seus homens. Assim, não é de estranhar que a gente comece desde muito jovem”.

Tudo o que foi descrito anteriormente só vem reforçar a importância do trabalho dos contadores de histórias para a preservação das culturas populares e a aproximação da população à leitura.

Mas como não há no Brasil uma formação específica na arte de contar histórias o interessado tem que ser autodidata.   Precisa ler muito, fazer muitas oficinas, ver muitos contadores, descobrir o seu estilo de contar, o gênero de história que lhe dá prazer. Evitar copiar o repertório que vê, buscar novas fontes, trazer outros olhares. E principalmente usar os seus próprios recursos. Cada contador tem suas sutilezas na hora de narrar. Por isso a mesma história pode ser contada de várias maneiras e todas serão belas desde que haja a entrega de quem conta.

Somos contadores na essência, estamos durante toda a vida construindo histórias. A narrativa faz parte do dia a dia. Um olhar para dentro pode ser o estopim dessa arte em cada um de nós.

Porém o mais importante é entender que a literatura oral é para ser brincada, dividida, compartilhada. Sejamos, portanto, solidários na vida e nos contos. De mãos dadas vamos atravessar o caminho onde nossas histórias se cruzam, se completam e se constroem.

Texto e foto reproduzidos do blog: falandodeleitura.blogspot